sábado, 26 de dezembro de 2009

Por onde anda?

Anda muito
Sem destino
Não telefona
Nem pra dizer
Dizer que vai
Vai andando
Sem rumo
Corre o mundo
Por passos dados
Sem números, rotas
Nada mais
Tem a si
Sempre é assim
Busca o que?
Enquanto anda
Só anda
Anda Muito
Não diz por quê.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Bar

Pareceu-me confuso nas palavras, fingi entender tudo com clareza e espanto dando margem a qualquer continuação. Continuou. Acredito que disse alguma coisa sobre mulher, dei-lhe um conselho pronto e prosseguiu. Em certo momento me ofereceu um cigarro, por receio de demonstrar indiferença, aceitei. Ele acendeu o dele e o meu com exatidão e entregou-me desajustado. Depois de duas tragadas fortes continuou seu assunto furado, perguntei-lhe se podíamos sentar. Sentamos. Segurou-me a mão e olhou-me fundo. "Posso lhe confiar um segredo?" - Indagou com os olhos marejados. Ao responder que sim, deixou uma lágrima rolar e me matou por dentro.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Amor e Adeus

Eu nunca te disse adeus
Jamais pretendi, contudo, amar-te para sempre
O amanhã me confunde
Assim como o passado me desfaz

Vejo-te torto dormindo o cansaço
Tua respiração vira ritmo
Balanço bobo na tua música
Faço letra, canto sempre, fico roco

A despedida entorpece, machuca
Não te quero ver pela última vez
Fiquemos assim para sempre
Eu, ao teu lado a velar
Você num eterno doce sono


sábado, 5 de dezembro de 2009

Próximo ponto


Apocalipse momentâneo enquanto o ônibus passa por um grupo de crianças
Grito cru da moça que balança ao som da morte fresca
Fuga de si, sim.
O mundo acaba nos braços do dragão vermelho
Cuspes de fogo
Sopro do vento
O mendigo pergunta que hora marca o relógio.



sábado, 28 de novembro de 2009

Espera

Parado em espera teoriza a situação. Vê o mesmo homem passando duas vezes na mesma direção com um menino no colo. Encenação forçada. Figurantes sem vontade. Corre os olhos pelo rapaz torneado que o admira com desejo. Indaga-se. Admite. Perde-o de vista.
A espera continua no topo da escada. Troca de posição, encosta na parede. O chiclete sem gosto passeia entre os dentes elogiados pelo dentista da família. Nunca precisara de aparelho, orgulha-se. Lembra dos óculos guardados e dos graus irregulares de cada olho, fica feliz por não ter oftalmologista de família. Com um abraço apertado e um elogio pelo corte de cabelo a entrega começa e a espera termina.


sábado, 14 de novembro de 2009

Verdade

Maria Amélia é mulher de verdade
Lava
Passa
Cozinha
Tendo tempo, sorri
E passa pelo bairro
Com seu cabelo amarrado
Seu vestido de renda
Enquanto carrega
O menino pela mão
A trouxa na cabeça
De verdade
Maria Amélia é só.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Posters




Imagens, imagens e mais imagens. Por todos os lados. Faz de conta que tá valendo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Do sofá

Por gotas contadas e goles amargos veio a tarde sem sal, de um mundo pequeno, opaco e sem vontade. Percorreu os canais da televisão e nada, absolutamente nada. Sozinha admirou a janela canelada de visão abstrata e sem cores. Percebeu dois carros passando rápidos em fuga. Para onde vão? Em qual esquina fica a dobra necessária para um destino certo? Levantou-se rápido na tentativa de vê-los. Não os viu. Abrira a porta por nada, fingiu para ninguém que apenas fora dar "oi" ao cachorro bobo que sempre a olha com olhos de sono e fome certa. Entrou rápido guardando no bolso a frustração. Bolso cheio. Jogou-se novamente no sofá dessarumado e querendo, porém sem grandes demonstrações, tocou-se ligeira. Resumida tentação de se amar, de ser amada. Não consegue preencher-se sozinha, tentar virara ritual. Histórias loucas passam em seus olhos enquanto se expande em si mesma. Sorriso bobo. A apresentadora do programa chato pára e a olha com repulsa e castidade. Sente-se culpada, suja, satisfeita.

O toque do telefone interrompe o transe do banho desnecessário. Não atende, imagina. Algum parente morto, algum convite chato ou talvez uma ótima proposta. Arrepende-se. Fecha o chuveiro, enrola-se na toalha rosa e sai pingando do Box na esperança de uma nova tentativa do telefone. Nada. Em plena cólera joga a tolha sobre o mesmo sofá que fora há minutos seu amante e deita no chão. O latido do cachorro impõe a realidade. Olha a sala pelos cantos dos olhos e imagina-se no meio do nada. Do vazio. De um espaço branco. Paralisa. Dorme solitária.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Primavera

Num clique repentino flagrei a abelha.

(Jardim Botânico - UFRRJ)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Fumaça

A tarde caia quente soprando um vento morno e deixando os corpos agitados. Um bonde barulhento acendia as luzes enquanto passava frente a um bar meio vazio. As crianças libertas da última aula que tiveram conversavam alto enquanto faziam uma garrafa de bola e chutavam-na entre si. Um homem de sandálias passava no portão enferrujado da casa antiga enquanto respirava fundo. Um cheiro forte de fumaça tomava conta de todo o bairro. Por um segundo tudo parou, o vento, o bonde, as crianças, o homem e a fumaça. Ela se olhou séria diante do espelho e virou eternidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Rufus

Deu sono antes do final trágico, dormi sem a imagem da mocinha sendo morta por uma faca de pão. Os sonhos teriam sido melhores? Ter o desprazer de me colocar no lugar do assassino simplesmente por não ter assistido o final do filme não compensa os minutos a mais de sono que tive, tão menos os pesadelos recheados de gritos e sangue. Enfim, não sei por que, mas acabei acordando sorrindo, coisa que não acontece há bastante tempo.

O dia inteiro foi dedicado ao medo adormecido desde a morte de meus pais da existência de um possível assassino frio e sanguinário vivendo dentro de mim. "Oras, se for para ser, que seja!" - Pensei no fim da tarde, depois me senti um tanto medíocre por achar que devo matar alguém para ser assassino, e me deparei com a seguinte dúvida: "Assassinos decidem que são assassinos antes de matar, ou matam e vêem que são, ou matam, matam e matam e não fazem questão de se entender?". Por ter lido umas coisas de Freud nos últimos dias acabei caindo em uma auto-análise sobre o meu eu assassino que apelidei de "Rufus". Perguntei-me se mataria alguém próximo, Rufus disse-me que não, perguntei-me se mataria uma criança, Rufus respondeu-me que não, enfim, perguntei-me se mataria a mocinha do filme com uma faca de pão, Rufus respondeu-me meio encabulado também que não.

_
Escrevi e ilustro (leia-se: fiz a pose boba pra foto) o texto, mas não, não tenho Rufus ao meu lado. Inté

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Imagem/texto/IMAGEM



Entre a mão pintada e o photoshop travando demorou duas horas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Impacto

Tão perto de mim que não posso rimar
Tão longe que não se descreve em linhas comuns
Páragafro
Desço inferno, começo novamente
De onde vem é o conflito
é a pessoa
o sujeito
individuo
Repito
De onde vem é o conflito
A coisa propriamente dita brota a cada esquina
Provoca riso, dor e quase nunca indiferença
Quando causa é coisa
Quando não, apavora
Ponto final
Não se descreve, não se entende, só se
PROJETA, PROJETA, PROJETA
à outro mortal na espera de resposta
Que vem, não vem
Importância?
É de outro agora.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cerca

Pula a cerca
Aproveita tua alma acabada
Aproveita minha paciência
Pula!

Ao descaso ofereço tua vontade
Não é por mim, não minta
Suja a reputação
Limpa os sonhos
Pula!

Um provável cachorro nervoso te aguarda
Ansioso
Late forte, escuta?
Entrega-se, pula!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Banho

Estava escrito e terminado, mas ligado à mim como as coisas que ainda não concluí. Não é mais meu, libertei-me, agora fica aqui como ponto final.

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Água gelada, fria como a vida que leva junto ao marido e os dois filhos. Teve a mão a faca e cortou o queijo, arrependeu-se amargamente. Empurrou aos cantos da alma os sofrimentos e passou forte o sabonete onde é limpo por definição. Apoiou-se no azulejo quebrado, o único que a compreende por completo entre tantos outros perfeitos e azuis, arrogantes em sua simplicidade. Nunca tentara alcançar a simplicidade, sempre tentou o importuno, o difícil, não conseguiu jamais. Fechou a água e se sentou no chão para tornar o momento um pouco mais demorado. Sentiu o piso frio gelar a superfície da pele, amou-se onde a pele tocou o solo. Jogou ao chão sua dor, seu corpo. Cabe-se dentro de si, não se põe para fora como a personagem do livro que lera na tarde anterior, - esperava os filhos saírem do colégio quando leu a última página, a personagem virou eternidade nas frases mal arrumadas pelo autor - e ela boba, não era frase, nem livro e nem eternidade, no máximo era banheiro. Tinha ao corpo a pequena partícula que forma tudo e não conseguia sentir-se nada.
Passos fortes sobre o assoalho procuravam por ela. Teve medo, ergueu-se rápido. Caso perguntassem sobre o vão momento em que ficará em banho sem o barulho de água responderia que penteava o cabelo, caso perguntassem se o cabelo fora bem penteado diria alegre que sim. Não chamaram por ela, não a quiseram. Os passos ignoraram sua mediocridade. Era ótima frente ao fogão, sobre a máquina de lavar, e mais ainda sobre a tábua de passar. Não sendo necessária comida, roupa limpa ou passada ela não se fazia necessária. Riu, fechou a água e voltou a se sentar.
Teve medo de morrer, não de morrer, de não continuar após morta. Disseram-na quando criança que basta dez anos após sua morte para que seu nome e sua reputação vão para junto do resto do corpo embaixo da terra. Não quer seu nome junto de si sob a terra. O medo orgânico de deixar os filhos para alimento do mundo não existe, nunca existiu para ela, saíram do ventre não da alma. Não eram dela, nem de ninguém. O marido bobo que nunca descobrira sua verdadeira face tão menos importava. Queria algo mais, levantou. Ter medo da morte assegura que a vida deste jeito então é boa. Não é, e não faz sentido.
A irmã gorda que acha ter certeza de tudo, e que está sempre certa, impõe uma aceitação que não quer mais ter. Distanciou-se da irmã por alguns meses e mesmo longe seus atos eram para ela, seriam aceitos? Seriam? Não importa o arroz queimado, o que importa é se entenderão que o arroz queimou por um descuido humano, passível de ser cometido até por sua irmã. Achava-a inteligente, irritante, irônica, superior, mas quando por perto demonstrava amor fraternal. Seria esse seu propósito, viver à sombra da irmã que não faz idéia de seus atos.
Trocou a temperatura do chuveiro com leveza majestosa, a água expelida agora será quente. Tentativa falha de se sentir mais aconchegada esqueceu de abrir a torneira e se perdeu em mais alguns pensamentos. Terá ela comprado presunto suficiente para o jantar? O tempo que resta para as seis da tarde acompanhará o preparo do assado? Como será o oposto do que sinto? Inevitavelmente deixou-se cair novamente no chão. Desta vez sem tato caiu meio deitada meio ajoelhada sobre o próprio corpo. Amargou-se por não ter o livro da tarde anterior ali perto, gostaria de lê-lo, fugir da realidade, sumir entre as páginas. Não o tendo tentou inventar uma estória qualquer, fazendo de si a personagem principal. O único roteiro a que conseguiu adaptar seu personagem era o da própria história, chata, sem aventura nem animação. Seus sonhos quais eram? Poderia ter realizado algum em pensamento, trocado alguns detalhes ou arrumado os finais. Saber quais são é difícil. Achou então que precisa de uma psicóloga, um psicanalista, um analista, ou algo assim. Desistiu em seguida por medo de descobrirem o tempo que desperdiçou no banho para decidir que precisava disto. Levantou torta com as pernas dormentes, segurou-se firme na prateleira para conseguir ficar plena de pé, ficou. Saiu do box meio tonta, triste e já seca.


sábado, 25 de julho de 2009

Dormir... dormir... Talvez sonhar...


"Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer..., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis morosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem."
Hamlet, Shakespeare

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Lixo imaginário

Podre e tão só morre a desgraça
Engraçada talvez se vista de longe
Insípida se não vista
Há vistas que preferem não ver

A culpa tem dono
O dono não tem culpa
Mora longe
Bebe uísque
Mora, bebe, morre
Tem herdeiros

Com quem fica o espaço na calçada
Não importa
Um ambulante, uma ambulância, um panfletinho
Que oferece "Dinheiro já" e diz lá no canto esquerdo
"Não jogue lixo na rua, ela é a casa de um pobre coitado"
Fim, riso, já disse que não importa?

sábado, 11 de julho de 2009

Meio-fio

Vento quente e passos rápidos. Bolsa de papel apertada contra o peito e vestido na altura dos joelhos com estampa de florzinhas que de longe parecem bolinhas coloridas. Bola rola nos paralelepípedos quentes, são férias. Mulheres cansadas com suas vidas na boca conversam por cima dos muros baixos. Ela passa rápido e olha para o chão concentrada tentando descobrir o assunto. Um caminhão que vai entregar a cama nova da vizinha passa pela rua e arrebenta um dos fios de eletricidade. Ela passa, mas ninguém vê.

sábado, 4 de julho de 2009

A bússola aponta sempre para o norte

Pensou nos filhos sem futuro, pensou no choro da esposa, lembrou até dos latidos importunos do cachorro durante a noite e continuou a andar. Não andava por liberdade, não mesmo, andava tentando achar um rumo, uma direção. Perdia-se toda vez que olhava para o céu, tinha inveja das nuvens, do azul, do nada. Pisava em passos firmes, afinal não ter um rumo não era desculpa para não ser intenso. No sapato carregava dedos ativos e animados que se mexiam entre os contatos do sapato com o solo. Estava em êxtase constante, o que era difícil explicar para um sujeito mal letrado e com uma vida tão sem..., sem..., enfim, sem. Cogitou diversas vezes durante seu percurso a não existência de um rumo a seguir, sendo esse o único caminho verdadeiro. Desistiu de cogitar, cansava demais. Já lhe mostraram alguns caminhos alternativos, a maioria com salvação espiritual no final, ele simples não se importava com o final, mas o que viveria até chegar lá, agradecia e continuava a andar. Divertiu-se quando lhe fizeram uma proposta para a venda de sua alma; "Chefia, não posso vender uma coisa que não sei se tenho no estoque." - Respondeu maroto. E sem muitas explicações e algumas dores que fez questão de enfrentar, ele morreu.

sábado, 27 de junho de 2009

Cama

O sopro doce sobre a pele macia, a música cantada bem baixinho e o cheiro forte de terra molhada. Chove lá fora, de cinza a paisagem já familiar, amiga, é tingida. O mundo pára entre as piscadas demoradas do olho caído. Pode ser que quando acorde esteja frio e sem chuva, se sim, sairá para terminar de decorar a casa que faz para o gato que vai ganhar de aniversário, ou pode subir na árvore que admira há anos pela janela de seu quarto.
O pé sente o lençol macio e a mão puxa a mão da mãe como se fosse ela o melhor cobertor do mundo. Sente-se seguro para dormir durante a tarde, pensa que talvez os monstros que podem oferecer perigo durante a noite podem estar ocupados demais para se interessar em perturbar seu sono vespertino.
Como não pode ser feliz? Ouvira o pai falar da existência de muita tristeza no mundo, não consegue entender, sente-se culpado. Seria ele a exceção ou mais uma anomalia? Não vê defeito no mundo e alegra-se quando as coisas não vão como devem ser, não tem medo do futuro. Será egoísmo? Por possuir muitas coisas, física e emocionalmente, ficara indiferente à tristeza do mundo? "Criança não precisa pensar nisso menino!" - Respondem sempre que pensa alto. Não pensa alto, nem fala sozinho por defeito, só gosta da sensação de conversar consigo mesmo. Dorme enfim.

sábado, 20 de junho de 2009

Grey Garden

Gosto tanto quando um filme faz sair do normal, do superficial. Flutuei com esse tal jardim, me transpus. Tive medo do futuro, de perder cabelo e de não ser.

Cigana

- Eu vejo um mundo dourado pra você.
- Só por olhar as linhas da minha mão?
- É. Vejo também que terá muitos amores.
- E com qual devo ficar?
- Escolha. É possível que fique muito rico.
- Já me disseram isso.
- Mas morrerá cedo de câncer.
- Larga a minha mão sua puta.
- Está bem, morrerá dormindo.
- Exato...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Catarse

Sento bobo e desajeitado sobre o divã. Doutor Carvalho se vira rápido com um impulso no chão que faz a cadeira giratória parar exatamente de frente para mim. Sorrio. Ele sorri. "Bom dia, como estamos?" - Pergunta. Respondo mudando rapidamente de expressão que só posso dizer por mim e que a resposta não é das melhores. Ele faz aquela cara que deixa transparecer que tem todo o conhecimento do mundo em suas mãos e que pode rotular com certeza todas as minhas disfunções sociais. Encosto a cabeça na parte alta do divã e dou sinal de que nossa próxima hora de frases sobre mim vai começar. "Aconteceu uma coisa muito estranha comigo esses dias”.- Digo esperando que se inicie algo parecido com um diálogo que me deixa mais confortável para continuar. "Não me importo!" - Disse o Doutor num misto de agitação e alegria. "Como não?" - Volto a sentar dizendo. "Meu filho, pare com isso”.- Disse e olhou-me fundo insinuando que não queria réplica. Faço-me de ofendido e me ponho de pé frente ao Doutor Carvalho, olho-o no olho esperando demonstrar toda a raiva que tento sentir e cuspo no chão. Saio de lá curado.

_

Espero voltar, mas não como antes, a ser presente por aqui. Não entenda presente como constante. Espero que tenham gostado das mudanças. Vejo-os.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Temporal


"Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira..."


O mais é nada.










Sim, desenho meu.
[Há tempos - Legião urbana]

terça-feira, 12 de maio de 2009

Memes

Dois memes que a Lu (trinta livros, um ano) me passou. (Era pro Discorro, mas...)
_
"Dez coisas que você encontra no meu quarto."

1- Uma porta de madeira feita de mural. (Eu não tinha um daqueles quadros de cortiça e tinha muitas taxinhas, o resultado é previsível.)
2- Um violão. (Usado como porta-tocas.)
3- Um colchão. (Sim, eu abdiquei da cama.)
4- Desenhos colados na parede. (Rascunhos, guaches, aquarelas etc.)
5- Um pôster do Myspace Secret Shows que teve na Lapa. (Matanza e Autoramas)
6- Um toca discos. (Que acabei de estragar. Vou levar pro conserto essa semana!)
7- Discos. (Eu tenho um do Bob Dylan. *-*)
8- A mesa do computador. (Carinhosamente apelidada pela minha mãe de "essa bagunça".)
9- Uma estante de ferro. (Livros, incensos, pastas, cadernos, pincéis, tintas etc.)
10- Eu. (Geralmente de meias furadas, roupa de dormir e falando sozinho.)


1- Agarrar o livro mais próximo;
2- Abrir na página 161;
3- Procurar a quinta frase completa;
4- Colocar a frase no blog;
5- Não escolher a melhor frase, nem o melhor livro! Utilizar mesmo o livro que estiver mais próximo;
6- Passar para cinco pessoas!

Livro: "Perto do coração selvagem" - Clarice Lispector.

"Quando a porta se abriu para Joana ele deixou de existir"

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Para:

http://davisbitch.blogspot.com/
http://lectervirouvegetariano.blogspot.com/
http://muitosemum.blogspot.com/
http://marcelodalla.blogspot.com/
http://procurandoavida.blogspot.com/

É isso.

domingo, 10 de maio de 2009

Lassidão programada

Suas palavras eram como facas atiradas contra um cadáver. Tão pouca importância eu dei aquele falatório que uma mosca voando sobre um pedaço de pão velho me divertiu e concentrou enquanto Joana falava. Em um fim brilhante, desses que só ela consegue de forma estupenda fazer, deu-me tchau e balbuciou qualquer coisa malcriada. Descontente com a fuga sem despedida da mosca, recolhi o pão e fui deitar.

Não fosse a janela de fronte ao leste não teria o maravilhoso prazer de acordar com a luz do primeiro sol do dia. Ainda cansado e um tanto preguiçoso decidi aos suspiros e bocejos ficar por mais algum tempo sobre a cama. Minha ineficácia mental não permitiu pensamentos muito profundos após a decisão de algum tempo de ócio sobre os lençóis, portanto foi com enorme energia e quase nenhuma conclusão que levantei e fui à padaria. A importância com a aparência e as roupas ficou para trás após a guerra que participei mentalmente, depois de tantas batalhas ganhei a guerra e perdi o prazer pela estética. Ao chegar à padaria, vestindo meu pijama e ostentando meu não-penteado, fui à caixa e pedi dois maços do meu cigarro e um pacote de pão integral. A moça risonha e sem criatividade então fez a mesma piada que ouço há meses: "Pão integral pra cuidar da saúde, ah, e seus cigarros para ter de que cuidar (sorriso)". Medíocre. Peguei minha sacola e fui para casa.

O carro vermelho parado na frente de meu portão denunciou que Joana resolveu voltar para terminar o discurso do dia anterior. "Oh, deus!" - Exclamo sempre que vejo esse maldito carro, força do hábito. Após o "bom dia" e acender um cigarro ela se levantou e ofereceu o isqueiro para acender um para mim. "O que você quer?" - Perguntei, enquanto preparava o café, rompendo o silêncio. Na verdade eu sabia o que ela queria e que não ficaria ali tempo suficiente para beber o café que aceitou, mas mesmo com minhas deduções sempre pergunto, detesto ficar perto de outro alguém em silêncio, meu silêncio é só meu. Com Joana longe e suas reclamações ainda ao meu lado fui tratar de minha vida.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

He looks like a soap bubble


Tenho migalhas de bolo no lençol e meias brancas com furos no calcanhar. Sonho com um mundo de cores vivas durante um sorriso qualquer. Assopro forte o buraco número 6 da gaita simples, e no fim não faço ideia se foi um Dó ou um Ré. Dou um pulo sozinho e canto qualquer coisa. Tenho medos simples e quero coisas atoa. Não ligo mesmo para a direção do vento.


quinta-feira, 30 de abril de 2009

Delírios risíveis


John chega ao fim da rua estreita, para na esquina movimentada e abre a mochila de couro surrado à procura de seus cigarros. Percebe que do outro lado da rua vem uma amiga dos tempos que tocava violão em uma banda. "Maria ou Amelie?" - Pensa confuso acendendo o cigarro. Era ruiva, vestia um vestido vermelho e andava rápido em sua direção. "John quanto tempo!" - Diz a mulher ao abraçá-lo. "Seu aniversário não foi ontem?" - Pergunta cabulada pela falta de animação do amigo. "Sim, completei 34 longos invernos" - Diz soltando fumaça pela boca. Ao terminar a dolorosa frase que diz ao mundo sua idade, a ruiva, Maria ou Amelie, some da frente de John como a fumaça que acabara de soltar.

[Texto e pitura meus . :)]

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Outono



Existe uma hora em todo fim de tarde de outono que não consigo - já tentei diversas vezes - descrever. Acontece algo tão sublime que não cabe a mim nem a minhas palavras explicar. Não sei se são as boas recordações ou o clima calmo que vem a tona em tal momento.

A luz vermelha de um sol amigo invade a sala de estar, um vento frio me toca a pele e um silêncio tão audível e amável quanto um riso infantil me levam para além de mim mesmo.

Tão simples e tão perpétuo é o momento que sinto vontade de ficar ali parado, para sempre.

Até enfim que o sol se vai e me liberta do prazer sufocante do fim de tarde.


[Foto: Olivier Taugourdeau]

terça-feira, 14 de abril de 2009

Conto dos pobres gatos mortos

Não fosse a última cruel evidência, os assassinatos do bairro não seriam descobertos. Tudo começou quando o pobre Romeu apareceu moribundo no portão de dona Zuleica. Romeu era um gato sério, desses que não se dão aos infortúnios acometidos pelos outros felinos do bairro. Nunca ouvi o pobre gato se quer miar em meu telhado. O coitado, aparentemente envenenado, foi o primeiro de uma sucessão de crimes cruéis. Sem explicação, o defunto foi posto em um saco plástico e levado pela coleta pública de lixo.

Em uma segunda-feira chuvosa o segundo a perder a vida foi Reginaldo. Era um gato esperto, filho de legítimos siameses. Nunca dera trabalho a sua jovem dona. Foi aos prantos que Ritinha recolheu, em um misto de nojo e tristeza, seu amado Reginaldo. O gato teve o funeral que mereceu. Lápide e velas enfeitaram o jardim de Ritinha até o tempo tornar-lhes lixo.

O medo e a insegurança eram perceptíveis no olhar de todos os gatos que passavam por mim. Sentia dó ao me imaginar em suas peles peludas. Senti tanto que me pus a buscar informações relevantes sobre as mortes inexplicáveis do bairro. Mortes sucessivas ocorreram sem adicionar nada interessante à minha investigação, apenas que gatos morrem fácil demais.

De minha janela da sala de estar posso ver o quintal de seu Roberval. Senhor honesto e bastante querido nas redondezas, como aqueles que distribuem pirulitos e deseja "bom dia" a deus e ao mundo. Enfim, em minha observação matinal regada a café amargo, deparei-me com uma cena um tanto esquisita. Pude ver o bom velho nas pontas de seus carcomidos pés colocar uma pequena vasilha preta em cima do muro que protege sua casa dos desprazeres da rua.

Tenho a árdua tarefa de levar seu Roberval de carro toda quinta-feira à farmácia da cidade. Tendo em vista os melhores preços para seus remédios vitais e a pouca mobilidade de seus ossos, levo-o até lá por puro filantropismo. Em nossa última ida ao centro pedi a ele que me deixasse analisar suas orquídeas. Puro bom humor, deixou-me sem retrucar. Quando voltamos, estacionei em seu portão e adentramos em sua casa. Com seu lento caminhar e a necessidade de guardar os remédios comprados andou em direção a porta da casa e me deixou esperando-o voltar para dissertar sobre suas orquídeas. O tempo foi mais que necessário para eu descobrir que no seu vasilhame em cima do muro tinha muito mais que comida de gato. "Seu Roberval é um assassino!" - Pensei com cólera, porém antes de desmascarar o inescrupuloso Roberval, escutei sua explicação sobre as orquídeas e tomamos um delicioso chá com biscoitos juntos.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Impessoalidade

Enquanto explica suas dores e seus distúrbios, procura em seu íntimo conformidade e explicação para os desenganos alheios. Não os desenganos dos outros, esses pouco importam, mas sim os próprios desenganos que se figuram alheios pela distância que tem do "eu" exposto a qual chama de "verdadeiro eu". A vida simples que seu "verdadeiro eu" leva aos empurrões de sonhos comuns é fácil de corrigir, analisar, mudar e encarar.

Os destroços da figura interna são complexos e merecem atenção. Não a atenção da senhora pseudo-intelectual que o escuta por horas pagas no fim do mês. Continua indo às sessões por gostar das tentativas falhas de entendimento de seu "verdadeiro eu". Seu "eu" íntimo, problemático, inatingível é só seu, de mais ninguém.

A conciliação entre os desejos mórbidos de sua personalidade fácil com seu outro "eu" denso tem de ser auto-concebida, e não proposta por estranhos que nunca encostaram no núcleo do átomo purgante e explosivo.

Suas prosas públicas feitas em grupo escondem o mal sujeito que não vê solução. O "eu" simples funciona como esponja de caracteres recebidos. Sonhos, vontade, desapegos e ódios ditos entre assuntos irrelevantes são sugados e expostos futuramente. Não há verdade. Frente ao mundo corrosivo melhor expor coisas boas, comuns.

O "estranho eu" fala ao ouvido nos momentos solitários, provoca pensamentos de crise, indaga sobre a falsa reputação, fere. Não vendo solução o torna alheio.


domingo, 29 de março de 2009

Entropia


O domingo chove na manhã tranquila. Os olhos pesados pela noite mal dormida fazem esforço para abrir. Os possíveis confrontos do dia duplicam a falta de vontade de se levantar.
A noite anterior deixou suas marcas. O gosto amargo na boca trás lembranças desagradáveis. O zumbido agudo continua a se perpetuar em seus ouvidos.
A mão passa sobre o cabelo tentando arrumar a desordem. Um bocejo interrompe a ação deixando a mão estática.
Passos atrás da porta denunciam a presença de familiares assassinos de maus atos. A voz macia pergunta com cuidado: "Você já acordou?". A pergunta é ignorada assim como a dor de cabeça atordoante.
Um sopro frio vindo da janela entreaberta deixa o corpo arrepiado. A primeira sensação boa do dia projeta um sorriso no rosto inchado.
O óculos com lentes sujas é posto. Indaga-se se consegue enxergar melhor com ou sem o objeto pendurado no rosto.
Está indiferente. Levanta.


[Femme Assise. Miró, Joan]

segunda-feira, 23 de março de 2009

Devaneios aleatórios

Entre as dúvidas e as certezas: o cigarro após o almoço.

Os sonhos não existem desde que o relógio sutilmente ordenou que o dia começasse.
A vida tem suas curvas, seus segredos, suas cores.

O amigo da fila se transforma em pensamento quando não está presente.
Existem pessoas que são apenas necessárias por algumas horas, são mais eficazes como rastros de lembranças.

A escada define o caminho.
Seus músculos e suas pretensões dizem se é possível e necessário.

Cenas jamais se repetem.
Uma gota de água que cai do teto com infiltração pode mudar uma vida.
Uma cena se transforma por menos.

Os homens sujos procuram com olhares o que lhes é imposto.
A necessidade tem suas exceções.
Regras já nascem quebradas.

O cigarro após o almoço acaba.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tão perto

Eu postei no outro blog e deu vontade de pôr aqui também.
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Esqueço a menina que chora ao meu lado no banco do parque, esqueço o sofrimento da velha reumática que se empurra contra a idade pela ciclovia, esqueço a dor de viver a esperar o momento certo de levantar-me, abrir o guarda-chuva, e partir.
Vivo o trigésimo terceiro ano de minha estadia neste planeta, e o momento exato de partir nunca se mostrou para mim. Entenda partir não só como ir para algum lugar, mas sim libertar-me de certo modo.
A chuva chega, vai, e eu continuo, não literalmente é claro, parado em um banco de praça. Tenho minha vida, meus amores, meus ódios e até meus segredos, mas nunca pude dizer que levantei do banco da praça e parti.
Sempre vivi a observar e sentir os outros. Se alguém cai de uma bicicleta não levanto para ajudar, apenas sinto a dor das feridas que a queda abriu. Caso alguém ganhe qualquer coisa, fico extremamente feliz. E se perde, fico triste por dias. Assim vou indo, olho a chuva e imagino friamente me molhar.


sábado, 14 de março de 2009

Nítido

O mesmo vento que entortou a flor passou no cabelo desarrumado anunciando a tarde fria.

As aquarelas sem sal são os vestígios.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Cinzas

Quem define a beleza de seus passos são os sapatos que te suportam.
Trocaria sua vida de fama e sucesso por um amor?
Compraria morangos silvestres com o dinheiro destinado ao copo de rum?

O menino baila no salão vazio, sem música, sem companhia, sem vontade. É necessário manter o posto! É necessário morrer a cada esquina?

A vida é sua, lute por suas causas! Cause em suas lutas. Esqueça de mim, meu problema é a falta de interesse em suas causas e em todas as nossas conseqüências.

Em uma das festas falsas - que não divertem - perguntaram se está tudo bem. Tudo nunca está bem, meus queridos, nunca. Porém, por alívio de consciências, saibam que da cabeça para baixo tudo está em ótimo estado.

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Frases que vieram soltas depois de um filme qualquer.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Eu te amo, mas não para sempre, desculpe.

"Ao mesmo Deus que ensina a prazo
Ao mais esperto e ao mais otário
Que o amor na prática é sempre ao contrário" - Cazuza


Indo em direções contrárias iam corações contrários. Amor é dor a longo prazo, sabiam, arriscaram. E antes de narrar a separação de duas almas é necessário contar o início dos dias mais coloridos de ambas as partes envolvidas.
Ela Mariana, 23, fotógrafa, ama antiquários, odeia casas verdes. Ele Luciano, 25, artista plástico, ama a chuva, odeia cheiro de morango - não o morango. Tinham costumes diferentes, quase opostos, porém em um dia em que o café frequentado por Mariana e o bar por Luciano estavam fechados resolveram, ao mesmo tempo, ir ao museu da cidade. A exposição parecia mostrar as piores obras do pintor. "Se me der um gato e um balde de tinta eu reproduzo esse quadro" - Luciano disse a Mariana enquanto olhavam para o mesmo quadro e faziam a mesma expressão. Ela riu. Ele a convidou para um café, "O café está fechado!" - respondeu, continuou: "Que tal uma cerveja?". "O bar está fechado." - Respondeu triste Luciano. "Não quer andar um pouco por aí?" - Perguntou Mariana, que ficou encabulada até receber o "sim" amoroso.

O "andar por aí" se transformou em "quer subir?", que depois de algumas semanas virou "quer namorar comigo?". "Brigas todos têm" - Diziam enquanto se abraçavam no fim de alguma discussão. Passaram semanas, meses, então três anos. O namoro parecia ser eterno, mas o cheiro dos perfumes enjoava tanto quanto os olhares. O amor se tornou ódio. E o fim foi declarado em plena estação do metrô.

- Quando você disser que chega às nove, por favor, chegue às nove.

- São só nove e meia Luciano.

- Não to disposto pra brigas, vamos logo?

- Pra onde?

- Oras. Pro museu.

- Não pode ser pro parque?

- Não Mariana. Aquela exposição em que nos conhecemos está lá de novo. E eu acho interessante comemorar três anos de namoro onde tudo começou.

- Ah, claro, mas antes eu preciso te contar uma coisa Luciano.

- Fala.

- Semana passada eu fiquei com o Eduardo.

Eduardo, 27, editor chefe, patrão de Mariana, ama manchas de tintas, odeia gritos.

- "Ficou" em que sentido?

- Nós transamos ora.

- Por quê?

- Não te interessa.

- Ta, já que é assim eu preciso confessar que transei com a Márcia.

Márcia, 29, empresária, vizinha de Luciano, ama barulho de moedas caindo no chão, odeia cheiro de velas.

- Eu não acredito!

Olharam-se, riram e partiram.
O amor não acabou, ele nunca acaba. Muda de nome, de imagem, de destinatário, de sabor, de intensidade. Muda sempre, não acaba nunca.

[Eu esqueci de assinar o desenho quando o terminei, mas é meu.]

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Bloco do eu sozinho.

Da janela é possível ver. Ver a mulher que passa com o sorriso sujo de batom, o menino magro que pula sem entender o refrão do samba-enredo, as crianças que se arriscam em ofender os homens fantasiados que as matam de medo.

O resmungar incontrolável da velha que cata latas é indescritível. Talvez sinta sede, talvez sinta fome, talvez seja carnaval.

A chaleira apita, imita o som feito nas ruas, sente inveja. A água que grita viraria chá, porém é substituído por café nos últimos minutos do início de uma noite vazia. Café forte com gosto de Brasil.

Faz calor na sala apertada e escura. O rádio se preocupa apenas em tocar os CDs dos Beatles. A TV protesta silenciosa ao exibir um leilão interminável de jóias. O mundo festeja delirante. É linda a distância que se pode ter do mundo com um pouco de esforço e frieza.

A caneca na mão denota solidão, o roupão demonstra desmazelo, a face não esconde a tristeza. A cena é mutável, sempre será.

Um bloco de rua passa. Convida a todos para participar da festa animada, demonstra o que a resposta positiva pode proporcionar. Some confuso por não agregar mais foliões. Resolve trocar a decepção por "são vocês que estão perdendo". A noite continua.

O telefone toca interrompendo o pensamento sobre o livro lido no dia anterior. A proposta interessa, cativa e é negada. A solidão neste momento é preferível. A vida chama, indaga, propõe. É preciso entender, é necessário explicar.

A noite termina entre dúvidas e tamborins.


Sobre os selos que me mandaram nas útlimas semanas: Selos

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Atrás de um sorriso.

As coisas estão em seu estado normal e prontas para serem abandonadas na solidão fulminante de algumas horas sem seu dono. A mochila é posta, o tênis amarrado e a preguiça ignorada. "Não esqueça as luzes acessas e as portas destrancadas menino!" - Disse quando partiu. O pedido de cuidado com as luzes é ignorado, não as acendo quando não são necessárias. A porta é trancada após a leve meditação que me leva por todos os cômodos e me assegura, mesmo sem certeza, de que nada esqueci. Parto.

O ônibus é pego as pressas, tenho que chegar a uma da tarde. Solto, ainda é meio-dia. A corrida até o ponto do próximo ônibus me cansa. Como pode um menino de 18 anos estar cansado com uma mísera corrida? Como pode um menino de 18 anos correr cansado para o ponto de ônibus? Como pode um menino de 18 anos fumante não cansar ao correr no sol de 40º do Rio de Janeiro? O segundo ônibus foi pego, e nele aconteceram coisas maravilhosas, consegui voltar a respirar normalmente, por exemplo. Depois de 25 minutos eu já fazia parte do ônibus, estava lá sentado com os cabelos ao vento e com o olhar fixo na paisagem que se movia rapidamente. O sol e o morro não eram tão rápidos ao passar quanto as casas e lojinhas de beira de estrada, só pra constar. Cheguei por lá às 13:01, fui correndo por cima da grama que desde sempre não se pode pisar. "Não pise na grama", "Não fume" e o mais importante "Não pense, nem sob tortura". Cheguei, disse "Boa tarde", responderam-me simpaticamente. Às duas horas e meia que seguem o "Boa tarde" são coisas minhas, pulemos. Ao sair consegui tirar umas fotos do lugar, não pretendia ilustrar esta crônica e naquele momento, pra falar a verdade, nem imaginava esta crônica.


Mais um ônibus em meu caminho, porém este com um gosto diferente, gosto de vitória, de parabéns, de tranquilidade. As mesmas paisagens passavam em minha janela, entretanto agora com os tons de laranja, vermelho e amarelo que o sol lhes dava e na direção contrária. O calor dentro do ônibus era inebriante, unificador. Todos diziam "Que calor!", a sensação era geral, então no ápice das reclamações ao astro que nos mantém funcionando me foi incontrolável sorrir para a menina que tentava cantarolar qualquer coisa no colo da mãe.

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Certas coisas não precisam que seu sentido seja exposto como troféu a todos que as vêem. Se não faz sentido para você, continue nesta rua e vire à esquerda.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Apêndice (1/2)

Os fantasmas são, agora, reconhecíveis;


Abriu os olhos lentamente como o protagonista fez em um filme que assistiu. O quarto estava escuro por causa da cortina cor de vinho. A cena era perfeita. Ouviu um trovão forte, ficou feliz por imaginar que a chuva do dia anterior continuava, desanimou quando percebeu que o som era de uma motocicleta querendo atenção.

Passou a noite com seus pensamentos e com a repulsa pela recepcionista indiscreta, não dormiu. Saiu do motel confuso, não sabia para onde ir. Decidiu, depois de pairar por centenas de incertezas, ligar para um antigo amigo que o convidou há uns anos atrás para morar em uma república de estudantes de arquitetura. Ligou.


[Fotorafia de Chema Madoz]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Apêndice (1)

Tinha aos olhos os óculos molhados pela chuva, tinha ao rosto lágrimas disfarçadas pelos óculos. Seus pés doíam por andar a tarde inteira. Andou sem rumo, esperando encontrar o que deixou ao sair. Não estava arrependido, nem iria se arrepender. É forte como a mãe e orgulhosos como o pai, tanto que os abandonou.

Quando a mochila começou a pesar e sua dor nas costas chamou mais atenção que seus pensamentos, parou em um motel de esquina, onde a atendente repugnante perguntou-lhe se desejava companhia.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Na cabeça de um Marechal.

A pomba louca voava rápido sem saber para onde ir. Viu crianças felizes no parque. Viu sua vida diminuir. Adorava as correntes de vento, impulsionavam-na no ar. Via as coisas, então, de cima. Conseguia ver o mar!

A pomba louca tinha nome. Conseguia conversar. Fala sempre com seus amigos, que só sabem arrulhar. Nunca recebeu uma resposta digna. Nunca soube a quem amar. Muda seu nome diariamente. Quem vai nela reparar?

Sua vida teve propósito, quando viu Roberval. Um pombinho lindo e branco. Parado sempre na cabeça de um Marechal. Floriano ou Peixoto? Quem dera Deus saber. A pomba louca não ligava. Amava Roberval pelo seu jeito de ser.

Tomou coragem e voou perto. Viu os olhos Roberval. É paixão! – pensou ela. Ou será instinto maternal? Não conseguiu entender. Preferiu deixar de lado. Foi embora sem saber, o que pensava seu amado.


Pomba: (nankin e pena), Lucas Moratelli (Rio de Janeiro 26/01/09).

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Le pipe



"Um dia terá que ser admitido oficialmente que o que batizamos de realidade é uma ilusão até maior do que o mundo dos sonhos." - Salvador Dali

Prêmio Dardos/ Olha que Blog Maneiro - Selos

Postagem modificada dia 31/01/09


Agradeço a Luciane (Sobre isso ou sobre aquilo) pela citação do meu Blog para o Prêmio "Dardos".


O Prêmio Dardos é uma forma inteligente de reconhecimento entre os blogueiros e tem algumas regras a serem seguidas pelos indicados:

-O indicado deve escolher outros 15 blogs para premiar.
-O indicado deve informar em seu blog quem o indicou ao prêmio.
-O indicado deve ter o selo do prêmio em seu blog na página principal.
-O indicado deve avisar aos premiados.

Os blogs que indico para receber o Premio Dardos são:

http://lectervirouvegetariano.blogspot.com/
http://filosofiamadorista.blogspot.com/
http://muitosemum.blogspot.com/
http://rebuscandoaconsciencia.blogspot.com/
http://davisbitch.blogspot.com/
http://beto-spiceboy.blogspot.com/
http://desnecessarioporemvalido.blogspot.com/

Não foram 15. :)

Imagem: http://4.bp.blogspot.com/_7EwhvEngKoo/SX_NtFnG0CI/AAAAAAAAAIM/wsLANdgrKhg/S187/imagem+premio_dardos_thumb1.jpg



Agradeço ao Beto (Beto Spice Boy's World) pela citação do meu Blog para o selo "Olha que blog maneiro."

Regras:

1. Exiba a imagem do selo “Olha Que Blog Maneiro” que você acabou de ganhar!!!
2. Poste o link do blog que te indicou. (muito importante!!!)
3. Indique 10 blogs de sua preferência.
4. Avise seus indicados.
5. Publique as regras.
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7. Envie sua foto ou de um(a) amigo(a) para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com os 10 links dos blogs indicados para verificação.
Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B.


Blogs indicados:

(Vide indicação do "Prêmio Dardos")

Obrigado ao Beto e a Luciene pelo reconhecimento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Epitáfio.


Foi comprado por míseros cinco reais, que se não fossem usados em sua compra seriam gastos em um maço de cigarros. Recebeu o nome de Epitáfio, não por seu significado mórbido, mas sim pela beleza e pelo mistério que rondam a morte.

Não tinha pedras coloridas, peças de um jogo de xadrez de vidro quebrado se apropriaram dignamente do serviço.

- É fêmea ou macho?
- Não sei.
- Como não, você os vende sem saber o que são?
- Se são verdes ou azuis digo que são machos, se são vermelhos ou amarelos digo que são fêmeas. Ninguém reclamou até hoje.

É azul, então é macho, mas isso pouco importa agora. Já estabelecemos alguns contatos, com furtivos olhares. Descobri uma coisa surpreendente, ele é mais profundo que o aquário que o guarda.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

2.169 passos.


Tenho em mim a certeza de que poderia ter feito de forma diferente. E ainda nem o fiz. Este sentimento angustiante tem me perturbado constantemente e não sei mas o que fazer.

Em soluções pensei algumas, nada tão relevante, nada milagrosamente solucionador. Perco dias andando neste apartamento imundo com uma caneca vazia na mão. Poderia fazer um café, poderia fazer uma análise psicológica, podia até fazer um café enquanto analiso tal mesquinha ação psicologicamente. Não o faço, nem o farei. Sou indolente, sei disso. Não me importo, acho até que já perdi alguns quilos andando de canto a canto no "AP" 201.

A campanhinha não toca há dias, acho que está competindo com meu telefone, uma daquelas brincadeiras de quem falar primeiro perde, estão empatados. A televisão não sintoniza mais um maldito canal, devem ter cancelado a assinatura. Fica o dia todo a mostrar-me belos e dançantes pontos pretos e brancos, já até me afeiçoei a eles.

Acho que ontem lá pelas cinco da tarde resolvi contar meus passos. Contei 2.169, cansei. Pelas oito da noite decidi dar alguns pulos, confesso que foram divertidos, mas às 8:05 Dona Evarista estava cutucando o teto (leia-se meu piso) com um cabo de vassoura, parei. Não me recordo à hora exata, deve ter sido entre as 10 e 11 desta manhã, fui até a janela da área de serviço e em três dias foi o único momento em que parei. Na janela de um apartamento do bloco de trás pude ver o filho do síndico a neta de Dona Evarista e mais um guri aos beijos e abraços. A cena me interessou, consegui abrir até um sorriso, mas quando os meninos me viram a admirá-los, eu um bardo de 32 anos considerado louco por todo o condomínio, fecharam assustados a cortina do quarto. Pena, voltei a andar.
Justificar
Lucas Moratelli, Rio 19/01/09

A belíssima foto, dos meus pés, foi feita e tratada por: Tainá Oliveira

domingo, 18 de janeiro de 2009

Desisto!

Desisto, em carta aberta, de ser.

Não quero ser, definitivamente. Deixo abertas as janelas de minh’alma, prontas a qualquer vento forte que deseje batê-las contra as paredes que me suportam, se é que as tenho. Não vejo mais beleza em minhas fraquezas, tão menos virtudes em minhas poucas forças. Covarde! - Não digo que não, afinal alguns já provaram que sim. "É preciso ter uma personalidade forte!" - Escuto desde sempre. E se não a tenho? E se for assim, simples, covarde, chorão, bobo, esperto (Inteligente? - não, não.), colorido, torto, cansado, etceteras mais. Envergonhava-me até hoje de ser, sim, de ser o que eu, decididamente, não era.

Pretendo agora, se é que me permitem dizer o que pretendo, dizer "não” quando quiser, sonhar meus próprios sonhos, escrever meus próprios textos, fugir de minhas personalidades tolas, enfim, ser o que eu era sem ser.

Não estou ficando louco, e se sou, já sou há bastante tempo. Vou terminar esta carta sem uma conclusão genial, faz tempo que me prendo a elas, tendo poucas vezes conseguido fazê-las.

Rio de Janeiro, 18/01/2009

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Falar pra quê?


- Que falta de sorte.
Resmungou quando terminou de conferir o bilhete da loteria. Estava às pressas, tinha que chegar cedo ao trabalho.
- É você que está errado amigo!
Gritou com o velho que tentava avançar o sinal e o quase atropelou. Só faltavam dez pras nove, precisava chegar as nove em ponto. Nunca entendeu o tal do ponto. E sempre que tentava entender alguma coisa que tinha certeza não entender, sentia fortes dores de cabeça.
- O Oswaldo já chegou?
Perguntou à secretária gorda que o olhava admirada pela sua beleza cansada. Fica lindo quando está com pressa ou preocupado. É de família.
- Que ótimo!
Disse quando a secretária respondeu-lhe que não. Não poderia chegar depois de Oswaldo. Era o mais animado da repartição. Sem ele quem gritaria "Feliz aniversário" quando Oswaldo chegar?
- Feliz aniversário!
Gritou atordoado quando viu que Oswaldo chegara atrás dele. Não teve sucesso. Oswaldo chorava, souberam rápido o por quê: Perdera a mãe durante a madrugada.
- Que falta de sorte!
Resmungou enquanto andava a caminho do abraço de aniversário/pêsames de Oswaldo seu amigo.


[Mais fotos: http://www.flickr.com/photos/lucasmoratelli]

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Enquanto não chove.

A simplicidade da cena torna-a bela, não mais que suas personagens, mas bela. O quarto é bastante tradicional, assim como fora Lúcia em sua juventude. Lúcia não é mais tradicional, não é mais jovem. Lúcia vive só, um "só" relativo, um "só" de pessoas. Tem a companhia constante e bastante significativa de uma pequena pomba. Não é branca, não é bela, não é. Assim como Lúcia a pomba faz questão de não ser.

Lúcia e sua pomba têm encontros diários, geralmente à tarde, quando o sol alaranjado entra no quarto apertado onde Lúcia dorme e vive. Lúcia conta a pomba coisas de sua vida e suas melhores estórias. A pomba dá a Lúcia o que ela espera das tardes ensolaradas entre os goles do chá, alguns olhares e um pouco e atenção.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Esquadros.



Não fosse o quadro me perderia,
Para sempre
Sem saber
Que o quadro não permite,
Que eu me perca.

La poesia è un percorso per l'anima ¹


¹ A poesia é um caminho para a alma.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Robertos e Marianas;

Tudo começou quando a impaciente Mariana me pediu um maldito emprego na loja de conveniência em que eu sou o gerente. "Sim, claro!" - Respondi. Sabia bem das qualificações da moça, e precisava mesmo de uma operadora de caixa. A vaga foi preenchida e também o vazio que caracterizava a vida da Mariana. Dois meses depois a menina veio-me dizer que voltou a estudar, respondi que achava isso ótimo, mas pouco me importava com os estudos da guria, não conseguia parar de olhar para ela, estava apaixonado.

Em casa não podia deixar Roberto notar nada de estranho comigo. Eu e Roberto já estávamos juntos há quatro anos, ele tinha 27 e eu 26. Ele Trabalhava como enfermeiro em dois hospitais no centro, e faltava só mais um semestre para terminar o curso de medicina e se tornar o Doutor Roberto. "Pouco me importa meu futuro!" - Eu dizia quando ele se punha a reclamar da minha medíocre vida. Eu sei! Era mesmo medíocre, e um tanto chata. Eufemismos me sobram para descrever minha vida, e não pretendo usá-los neste pobre relato. Só basta saber que não tenho nenhuma prática com artes cênicas e, portanto minha paixão foi logo notada por Roberto. Não gosto de mentir. Na verdade eu gosto, mas alguma coisa me fazia falar a verdade. E falei! Roberto riu, mas quando afirmei a hitória toda, ele ficou pasmo. "Você transou com essa putinha?" - Roberto me perguntou com raiva. Disse que não, ele se acalmou, e disse-me que era para eu parar logo com isso. Fui dormir depois do ataque raivoso do Roberto, e sabia que no dia seguinte a primeira coisa que ia fazer era falar com a moça.

Quando acordei não tinha mais ninguém em casa, só eu e a foto da Edith Piaf parecíamos vivos no quarto. Tomei banho, me vesti e fui trabalhar. Não lembro ao certo a conversa que tive com Mariana, mas sei que alguns minutos depois estávamos transando no estoque. Não foi tão bom quanto imaginei. Nada estava bom, todas as minhas frases relacionadas à minha vida vinham com o belo fragmento "vai melhorar" no final. Enquanto eu me recompunha no estoque, decidi. Saí de lá e fui pedir demissão. Tinha algum dinheiro no banco e um passaporte que me deixava morar na Europa. Desisti de Robertos e Marianas. Vivo hoje na Holanda, moro com uma velha senhora que não me cobra aluguel, só pede, às vezes, que lhe invente algumas histórias.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Se errado é;

Não fosse a raiva, rimaria,
E faria belos
Os versos mortos

Do poema a cá
.

Rimar engrandece,
E não pretendo jamais
Engrandecer

Um poema tolo
.

Ouvi dizer
,
Que primeira pessoa não pôde.

E daí?

Eu não ligo, eu não ligo.


Não quero poesias famosas
,
Tão menos

Famosas poesias,

Que mudam a ordem sem mudar o significado.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Operação tigre de bengala;

Não que fosse necessário, afinal não era. Gostava de ser assim, sentia até certo prazer na impessoalidade que demonstrava com as pessoas ao seu redor. Sua mãe odiava algumas de suas atitudes, "Que menino hipócrita!" - dizia. Não era mais menino era homem feito. Não era hipócrita era abobalhado. Tinha suas atitudes milimetricamente calculadas, e quando alguma coisa dava errado: "Eu esperava por isso!" - exclamava confuso.

Vez em quando tinha algum plano complicado, e gostava de dividi-los com seus amigos, imaginários, que estavam sempre por perto. Dava nomes as coisas, seus planos sempre tinham, chamava-os com alguns nomes que via nas operações policiais da tevê. "Operação tigre de bengala" - Foi o nome que mais adorou, tanto que teve continuação: "Operação tigre de bengala dois".

Tinha 27 anos quando sua mãe morreu, ou melhor, matou-se. Nunca soube o porquê, preferia não saber. Foi viver com a Tia Adelaide. "Megera!" - Pensava alto. Não via a hora de por o plano em prática e fugir dali. Dizem que por pressa o nome da operação foi só "Fuga" mesmo.