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quarta-feira, 21 de abril de 2010

As pérolas

Cortou-lhe as mãos como castigo eterno por roubar-lhe a simpatia. Moça bem criada com as bochechas rosadas e mãos para a costura. Como puderam fazer isso com ela? Se for errado indagar mais então deve ser interromper. Arrastou o vestido com as pernas trançadas de nervoso e caiu. Tombou torta no chão para arrebentar o cordão de pérolas que sobrou da herança. Rolaram as pérolas e as lágrimas sob o olhar maternal do céu.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Bar

Pareceu-me confuso nas palavras, fingi entender tudo com clareza e espanto dando margem a qualquer continuação. Continuou. Acredito que disse alguma coisa sobre mulher, dei-lhe um conselho pronto e prosseguiu. Em certo momento me ofereceu um cigarro, por receio de demonstrar indiferença, aceitei. Ele acendeu o dele e o meu com exatidão e entregou-me desajustado. Depois de duas tragadas fortes continuou seu assunto furado, perguntei-lhe se podíamos sentar. Sentamos. Segurou-me a mão e olhou-me fundo. "Posso lhe confiar um segredo?" - Indagou com os olhos marejados. Ao responder que sim, deixou uma lágrima rolar e me matou por dentro.


sábado, 4 de julho de 2009

A bússola aponta sempre para o norte

Pensou nos filhos sem futuro, pensou no choro da esposa, lembrou até dos latidos importunos do cachorro durante a noite e continuou a andar. Não andava por liberdade, não mesmo, andava tentando achar um rumo, uma direção. Perdia-se toda vez que olhava para o céu, tinha inveja das nuvens, do azul, do nada. Pisava em passos firmes, afinal não ter um rumo não era desculpa para não ser intenso. No sapato carregava dedos ativos e animados que se mexiam entre os contatos do sapato com o solo. Estava em êxtase constante, o que era difícil explicar para um sujeito mal letrado e com uma vida tão sem..., sem..., enfim, sem. Cogitou diversas vezes durante seu percurso a não existência de um rumo a seguir, sendo esse o único caminho verdadeiro. Desistiu de cogitar, cansava demais. Já lhe mostraram alguns caminhos alternativos, a maioria com salvação espiritual no final, ele simples não se importava com o final, mas o que viveria até chegar lá, agradecia e continuava a andar. Divertiu-se quando lhe fizeram uma proposta para a venda de sua alma; "Chefia, não posso vender uma coisa que não sei se tenho no estoque." - Respondeu maroto. E sem muitas explicações e algumas dores que fez questão de enfrentar, ele morreu.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Outono



Existe uma hora em todo fim de tarde de outono que não consigo - já tentei diversas vezes - descrever. Acontece algo tão sublime que não cabe a mim nem a minhas palavras explicar. Não sei se são as boas recordações ou o clima calmo que vem a tona em tal momento.

A luz vermelha de um sol amigo invade a sala de estar, um vento frio me toca a pele e um silêncio tão audível e amável quanto um riso infantil me levam para além de mim mesmo.

Tão simples e tão perpétuo é o momento que sinto vontade de ficar ali parado, para sempre.

Até enfim que o sol se vai e me liberta do prazer sufocante do fim de tarde.


[Foto: Olivier Taugourdeau]

domingo, 29 de março de 2009

Entropia


O domingo chove na manhã tranquila. Os olhos pesados pela noite mal dormida fazem esforço para abrir. Os possíveis confrontos do dia duplicam a falta de vontade de se levantar.
A noite anterior deixou suas marcas. O gosto amargo na boca trás lembranças desagradáveis. O zumbido agudo continua a se perpetuar em seus ouvidos.
A mão passa sobre o cabelo tentando arrumar a desordem. Um bocejo interrompe a ação deixando a mão estática.
Passos atrás da porta denunciam a presença de familiares assassinos de maus atos. A voz macia pergunta com cuidado: "Você já acordou?". A pergunta é ignorada assim como a dor de cabeça atordoante.
Um sopro frio vindo da janela entreaberta deixa o corpo arrepiado. A primeira sensação boa do dia projeta um sorriso no rosto inchado.
O óculos com lentes sujas é posto. Indaga-se se consegue enxergar melhor com ou sem o objeto pendurado no rosto.
Está indiferente. Levanta.


[Femme Assise. Miró, Joan]

terça-feira, 17 de março de 2009

Tão perto

Eu postei no outro blog e deu vontade de pôr aqui também.
_

Esqueço a menina que chora ao meu lado no banco do parque, esqueço o sofrimento da velha reumática que se empurra contra a idade pela ciclovia, esqueço a dor de viver a esperar o momento certo de levantar-me, abrir o guarda-chuva, e partir.
Vivo o trigésimo terceiro ano de minha estadia neste planeta, e o momento exato de partir nunca se mostrou para mim. Entenda partir não só como ir para algum lugar, mas sim libertar-me de certo modo.
A chuva chega, vai, e eu continuo, não literalmente é claro, parado em um banco de praça. Tenho minha vida, meus amores, meus ódios e até meus segredos, mas nunca pude dizer que levantei do banco da praça e parti.
Sempre vivi a observar e sentir os outros. Se alguém cai de uma bicicleta não levanto para ajudar, apenas sinto a dor das feridas que a queda abriu. Caso alguém ganhe qualquer coisa, fico extremamente feliz. E se perde, fico triste por dias. Assim vou indo, olho a chuva e imagino friamente me molhar.


sexta-feira, 6 de março de 2009

Cinzas

Quem define a beleza de seus passos são os sapatos que te suportam.
Trocaria sua vida de fama e sucesso por um amor?
Compraria morangos silvestres com o dinheiro destinado ao copo de rum?

O menino baila no salão vazio, sem música, sem companhia, sem vontade. É necessário manter o posto! É necessário morrer a cada esquina?

A vida é sua, lute por suas causas! Cause em suas lutas. Esqueça de mim, meu problema é a falta de interesse em suas causas e em todas as nossas conseqüências.

Em uma das festas falsas - que não divertem - perguntaram se está tudo bem. Tudo nunca está bem, meus queridos, nunca. Porém, por alívio de consciências, saibam que da cabeça para baixo tudo está em ótimo estado.

_
Frases que vieram soltas depois de um filme qualquer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Apêndice (1/2)

Os fantasmas são, agora, reconhecíveis;


Abriu os olhos lentamente como o protagonista fez em um filme que assistiu. O quarto estava escuro por causa da cortina cor de vinho. A cena era perfeita. Ouviu um trovão forte, ficou feliz por imaginar que a chuva do dia anterior continuava, desanimou quando percebeu que o som era de uma motocicleta querendo atenção.

Passou a noite com seus pensamentos e com a repulsa pela recepcionista indiscreta, não dormiu. Saiu do motel confuso, não sabia para onde ir. Decidiu, depois de pairar por centenas de incertezas, ligar para um antigo amigo que o convidou há uns anos atrás para morar em uma república de estudantes de arquitetura. Ligou.


[Fotorafia de Chema Madoz]

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Falar pra quê?


- Que falta de sorte.
Resmungou quando terminou de conferir o bilhete da loteria. Estava às pressas, tinha que chegar cedo ao trabalho.
- É você que está errado amigo!
Gritou com o velho que tentava avançar o sinal e o quase atropelou. Só faltavam dez pras nove, precisava chegar as nove em ponto. Nunca entendeu o tal do ponto. E sempre que tentava entender alguma coisa que tinha certeza não entender, sentia fortes dores de cabeça.
- O Oswaldo já chegou?
Perguntou à secretária gorda que o olhava admirada pela sua beleza cansada. Fica lindo quando está com pressa ou preocupado. É de família.
- Que ótimo!
Disse quando a secretária respondeu-lhe que não. Não poderia chegar depois de Oswaldo. Era o mais animado da repartição. Sem ele quem gritaria "Feliz aniversário" quando Oswaldo chegar?
- Feliz aniversário!
Gritou atordoado quando viu que Oswaldo chegara atrás dele. Não teve sucesso. Oswaldo chorava, souberam rápido o por quê: Perdera a mãe durante a madrugada.
- Que falta de sorte!
Resmungou enquanto andava a caminho do abraço de aniversário/pêsames de Oswaldo seu amigo.


[Mais fotos: http://www.flickr.com/photos/lucasmoratelli]

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Enquanto não chove.

A simplicidade da cena torna-a bela, não mais que suas personagens, mas bela. O quarto é bastante tradicional, assim como fora Lúcia em sua juventude. Lúcia não é mais tradicional, não é mais jovem. Lúcia vive só, um "só" relativo, um "só" de pessoas. Tem a companhia constante e bastante significativa de uma pequena pomba. Não é branca, não é bela, não é. Assim como Lúcia a pomba faz questão de não ser.

Lúcia e sua pomba têm encontros diários, geralmente à tarde, quando o sol alaranjado entra no quarto apertado onde Lúcia dorme e vive. Lúcia conta a pomba coisas de sua vida e suas melhores estórias. A pomba dá a Lúcia o que ela espera das tardes ensolaradas entre os goles do chá, alguns olhares e um pouco e atenção.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Se errado é;

Não fosse a raiva, rimaria,
E faria belos
Os versos mortos

Do poema a cá
.

Rimar engrandece,
E não pretendo jamais
Engrandecer

Um poema tolo
.

Ouvi dizer
,
Que primeira pessoa não pôde.

E daí?

Eu não ligo, eu não ligo.


Não quero poesias famosas
,
Tão menos

Famosas poesias,

Que mudam a ordem sem mudar o significado.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Operação tigre de bengala;

Não que fosse necessário, afinal não era. Gostava de ser assim, sentia até certo prazer na impessoalidade que demonstrava com as pessoas ao seu redor. Sua mãe odiava algumas de suas atitudes, "Que menino hipócrita!" - dizia. Não era mais menino era homem feito. Não era hipócrita era abobalhado. Tinha suas atitudes milimetricamente calculadas, e quando alguma coisa dava errado: "Eu esperava por isso!" - exclamava confuso.

Vez em quando tinha algum plano complicado, e gostava de dividi-los com seus amigos, imaginários, que estavam sempre por perto. Dava nomes as coisas, seus planos sempre tinham, chamava-os com alguns nomes que via nas operações policiais da tevê. "Operação tigre de bengala" - Foi o nome que mais adorou, tanto que teve continuação: "Operação tigre de bengala dois".

Tinha 27 anos quando sua mãe morreu, ou melhor, matou-se. Nunca soube o porquê, preferia não saber. Foi viver com a Tia Adelaide. "Megera!" - Pensava alto. Não via a hora de por o plano em prática e fugir dali. Dizem que por pressa o nome da operação foi só "Fuga" mesmo.

sábado, 27 de dezembro de 2008

D. Estefânia; 1

“Era moça simples e estudiosa, usava roupas comportadas e de cores neutras e ia à igreja diariamente.” – Cochichou a gorda para D. Estefânia dentro do ônibus.

“Você está se referindo a filha do Seu Manoel” – Perguntou confusa D. Estefânia.

“Ela mesma. Dizem que agora trabalha em bordel!” – Respondeu a gorda com cólera.

“Acho ótimo quando os jovens se interessam cedo pelo trabalho” – Disse contente D. Estefânia.

_______

Indico?
O rouxinol e a rosa - Oscar Wilde
(Clica no título do conto para baixar)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Who was born?

Não, ninguém nasceu, e se nasceu não se orgulharia do que é feito.
“Alguém me ajuda a rechear o peru?" - Disse ela purgando de felicidade.
Teu peru recheado não faz questão de participar da celebração! Nem colocaram o nome dele no amigo-oculto.

Cansei de Natal.

- Aceita um Dry Martini?
- Sim.

Depois de dois diálogos exatamente iguais ao que escrevi acima, me vi aos papos com a viúva, de marido vivo, ela preferia o imaginar morto. Falávamos de consumismo. Falávamos de Dry Martinis. Falávamos. Era Natal. "A festa cristã!" - A viúva exclamou com felicidade. Fechei os olhos por um estante. A viúva frígida achou que não a ouvia - não a ouvia mesmo - e saiu de perto praguejando todos do mundo. A meia noite a viúva desejou-me "Feliz Natal".

.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Depois das 10; (Cap. 3)

Capítulo 1
Capítulo 2
(Só clicar)

N
ão sabia as condições impostas por seu destino. Não sabia que tinha destino. Quando anda prefere não saber. Andava a passos largos. Em uma direção qualquer.

“Eu sempre fui boa para aquele canalha.” – Disse alto, assustou a velhinha que passava por ela.
- Desculpe senhora! Sabe me dizer pra onde fica o viaduto?
- Vire segunda esquerda, e tente parar de falar sozinha, filha, causa má impressão.

“Pro inferno com a boa impressão” – Pensou firme enquanto dava à velha um singelo sorriso.
Subiu rápido o viaduto - que não era tão alto quanto ela imaginava - e foi se sentar no muro de proteção.

“Não, não posso fazer isso por causa de um homem!” – Pensou. Sabia, desde o princípio, que não o faria. Queria fazer como em filme, a moça arrependida recomeça a vida e a faz de forma surpreendente após desistir de se matar.

Julia abriu um sorriso bonito. Era linda! Resolveu fumar um cigarro antes de ir para casa recomeçar de forma surpreendente sua vida. Deixou o isqueiro - dado pelo “canalha” - cair. Assustou-se, deu um grito, caiu junto.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Relacionamento morto;

(Foto e Edição: Eu!)


- A que horas ele chega?
- Não sei meu bem. Você está muito ansiosa pro meu gosto!
- E não é pra estar?
- Sei que é, mas não sei se devemos mesmo fazer isso.
- Claro que devemos Rui. O livro dizia que só com uma experiência dessas poderemos reavivar nosso relacionamento.
- Só acho exagerado demais para nós dois.
- É também acho, mas pode ser bom, e quem não morre, não vê Deus!
- Lá vem você com esses ditados ridículos do seu pai.
- Ridículo, mas muito animador.
- Você imagina como vai ser isso?
- ...
- Patrícia!
- Que foi?
- Por que essa cara de prazer?
- Só estou imaginando como será.
- Acho que eu vou sobrar nessa história.
- Claro que não Ruizinho.
- Você sabe que odeio "Ruizinho". E acho melhor não fazermos isso!
- Agora não dá pra voltar atrás, o menino já deve estar chegando.

(Campanhinha)

- Chegou, viu!
- Tudo bem, vamos fazer.
- Ótimo! Você prefere a faca ou o estilete?
- Tanto faz Patrícia! Nunca matei ninguém...

Lucas Moratelli

domingo, 14 de dezembro de 2008

Blowin' In The Wind


Estava atônito. Não fez questão de ver quem estava a gritar no palco. Arrependeu-se anos depois. Só precisava de um cigarro!

- Que puseram em minha bebida? Onde está minha bebida?

Ninguém o olhava. "Quantos ouvidos precisará um homem ter, Até que ele possa ouvir o povo chorar?" - Cantavam todos tristonhos, menos ele.

Melhor sair daqui. Melhor continuar por aqui. Quem tem as respostas? - Pensou. Recostou-se num canto qualquer. Ouviu então o magrelo cantar no palco: "A resposta meu amigo, está soprada no vento". Aliviou-se. Achou então um barbudo, amigo seu, que lhe ofereceu uma bebida.


__

Rio de Janeiro, 14 de Dezembro de 2008, vinte e sete reais e trinta e cinco centavos. Sob forte influência de um céu cinza e um disco recém comprado do Dylan.

Lucas Moratelli.



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Doce Martinha


A
passos rápidos para o boteco deixou cair. Deixou-se cair. Caiu.
Foi ver a conta da Martinha.
Ô menina pra comer doce.
Viu que Martinha, na cólera melhor dizer Marta, comprou cigarros.
Que fazer deus do céu?
A doce Martinha não andas a comer doces,
Fuma cigarros como a uma cachorra velha.
- Essa Marta me paga!
A passos rápidos para a casa deixou cair. Deixou-se cair. Caiu.


Lucas Moratelli

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Acidez;


E
antes do sol se por teve de guardar todas as tangerinas. Nem queria imaginar se a pegassem de tangerinas na mão. Tão crua, tão limpa, tão cheia de tangerinas. "Que dirá meu amor se me vir assim?" - Pensou guardando a última fruta. E antes do crepúsculo anunciar tão fortemente a chegada da noite, voltou a largar todas as tangerinas no chão. Decidiu, simples assim, que recolher tangerinas a luz da Lua é bem mais poético.


Lucas Moratelli;