
Tenho em mim a certeza de que poderia ter feito de forma diferente. E ainda nem o fiz. Este sentimento angustiante tem me perturbado constantemente e não sei mas o que fazer.
Em soluções pensei algumas, nada tão relevante, nada milagrosamente solucionador. Perco dias andando neste apartamento imundo com uma caneca vazia na mão. Poderia fazer um café, poderia fazer uma análise psicológica, podia até fazer um café enquanto analiso tal mesquinha ação psicologicamente. Não o faço, nem o farei. Sou indolente, sei disso. Não me importo, acho até que já perdi alguns quilos andando de canto a canto no "AP" 201.
A campanhinha não toca há dias, acho que está competindo com meu telefone, uma daquelas brincadeiras de quem falar primeiro perde, estão empatados. A televisão não sintoniza mais um maldito canal, devem ter cancelado a assinatura. Fica o dia todo a mostrar-me belos e dançantes pontos pretos e brancos, já até me afeiçoei a eles.
Acho que ontem lá pelas cinco da tarde resolvi contar meus passos. Contei 2.169, cansei. Pelas oito da noite decidi dar alguns pulos, confesso que foram divertidos, mas às 8:05 Dona Evarista estava cutucando o teto (leia-se meu piso) com um cabo de vassoura, parei. Não me recordo à hora exata, deve ter sido entre as 10 e 11 desta manhã, fui até a janela da área de serviço e em três dias foi o único momento em que parei. Na janela de um apartamento do bloco de trás pude ver o filho do síndico a neta de Dona Evarista e mais um guri aos beijos e abraços. A cena me interessou, consegui abrir até um sorriso, mas quando os meninos me viram a admirá-los, eu um bardo de 32 anos considerado louco por todo o condomínio, fecharam assustados a cortina do quarto. Pena, voltei a andar.

Lucas Moratelli, Rio 19/01/09


