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sábado, 28 de novembro de 2009

Espera

Parado em espera teoriza a situação. Vê o mesmo homem passando duas vezes na mesma direção com um menino no colo. Encenação forçada. Figurantes sem vontade. Corre os olhos pelo rapaz torneado que o admira com desejo. Indaga-se. Admite. Perde-o de vista.
A espera continua no topo da escada. Troca de posição, encosta na parede. O chiclete sem gosto passeia entre os dentes elogiados pelo dentista da família. Nunca precisara de aparelho, orgulha-se. Lembra dos óculos guardados e dos graus irregulares de cada olho, fica feliz por não ter oftalmologista de família. Com um abraço apertado e um elogio pelo corte de cabelo a entrega começa e a espera termina.


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Rufus

Deu sono antes do final trágico, dormi sem a imagem da mocinha sendo morta por uma faca de pão. Os sonhos teriam sido melhores? Ter o desprazer de me colocar no lugar do assassino simplesmente por não ter assistido o final do filme não compensa os minutos a mais de sono que tive, tão menos os pesadelos recheados de gritos e sangue. Enfim, não sei por que, mas acabei acordando sorrindo, coisa que não acontece há bastante tempo.

O dia inteiro foi dedicado ao medo adormecido desde a morte de meus pais da existência de um possível assassino frio e sanguinário vivendo dentro de mim. "Oras, se for para ser, que seja!" - Pensei no fim da tarde, depois me senti um tanto medíocre por achar que devo matar alguém para ser assassino, e me deparei com a seguinte dúvida: "Assassinos decidem que são assassinos antes de matar, ou matam e vêem que são, ou matam, matam e matam e não fazem questão de se entender?". Por ter lido umas coisas de Freud nos últimos dias acabei caindo em uma auto-análise sobre o meu eu assassino que apelidei de "Rufus". Perguntei-me se mataria alguém próximo, Rufus disse-me que não, perguntei-me se mataria uma criança, Rufus respondeu-me que não, enfim, perguntei-me se mataria a mocinha do filme com uma faca de pão, Rufus respondeu-me meio encabulado também que não.

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Escrevi e ilustro (leia-se: fiz a pose boba pra foto) o texto, mas não, não tenho Rufus ao meu lado. Inté

sexta-feira, 6 de março de 2009

Cinzas

Quem define a beleza de seus passos são os sapatos que te suportam.
Trocaria sua vida de fama e sucesso por um amor?
Compraria morangos silvestres com o dinheiro destinado ao copo de rum?

O menino baila no salão vazio, sem música, sem companhia, sem vontade. É necessário manter o posto! É necessário morrer a cada esquina?

A vida é sua, lute por suas causas! Cause em suas lutas. Esqueça de mim, meu problema é a falta de interesse em suas causas e em todas as nossas conseqüências.

Em uma das festas falsas - que não divertem - perguntaram se está tudo bem. Tudo nunca está bem, meus queridos, nunca. Porém, por alívio de consciências, saibam que da cabeça para baixo tudo está em ótimo estado.

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Frases que vieram soltas depois de um filme qualquer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Apêndice (1/2)

Os fantasmas são, agora, reconhecíveis;


Abriu os olhos lentamente como o protagonista fez em um filme que assistiu. O quarto estava escuro por causa da cortina cor de vinho. A cena era perfeita. Ouviu um trovão forte, ficou feliz por imaginar que a chuva do dia anterior continuava, desanimou quando percebeu que o som era de uma motocicleta querendo atenção.

Passou a noite com seus pensamentos e com a repulsa pela recepcionista indiscreta, não dormiu. Saiu do motel confuso, não sabia para onde ir. Decidiu, depois de pairar por centenas de incertezas, ligar para um antigo amigo que o convidou há uns anos atrás para morar em uma república de estudantes de arquitetura. Ligou.


[Fotorafia de Chema Madoz]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Apêndice (1)

Tinha aos olhos os óculos molhados pela chuva, tinha ao rosto lágrimas disfarçadas pelos óculos. Seus pés doíam por andar a tarde inteira. Andou sem rumo, esperando encontrar o que deixou ao sair. Não estava arrependido, nem iria se arrepender. É forte como a mãe e orgulhosos como o pai, tanto que os abandonou.

Quando a mochila começou a pesar e sua dor nas costas chamou mais atenção que seus pensamentos, parou em um motel de esquina, onde a atendente repugnante perguntou-lhe se desejava companhia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Epitáfio.


Foi comprado por míseros cinco reais, que se não fossem usados em sua compra seriam gastos em um maço de cigarros. Recebeu o nome de Epitáfio, não por seu significado mórbido, mas sim pela beleza e pelo mistério que rondam a morte.

Não tinha pedras coloridas, peças de um jogo de xadrez de vidro quebrado se apropriaram dignamente do serviço.

- É fêmea ou macho?
- Não sei.
- Como não, você os vende sem saber o que são?
- Se são verdes ou azuis digo que são machos, se são vermelhos ou amarelos digo que são fêmeas. Ninguém reclamou até hoje.

É azul, então é macho, mas isso pouco importa agora. Já estabelecemos alguns contatos, com furtivos olhares. Descobri uma coisa surpreendente, ele é mais profundo que o aquário que o guarda.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Enquanto não chove.

A simplicidade da cena torna-a bela, não mais que suas personagens, mas bela. O quarto é bastante tradicional, assim como fora Lúcia em sua juventude. Lúcia não é mais tradicional, não é mais jovem. Lúcia vive só, um "só" relativo, um "só" de pessoas. Tem a companhia constante e bastante significativa de uma pequena pomba. Não é branca, não é bela, não é. Assim como Lúcia a pomba faz questão de não ser.

Lúcia e sua pomba têm encontros diários, geralmente à tarde, quando o sol alaranjado entra no quarto apertado onde Lúcia dorme e vive. Lúcia conta a pomba coisas de sua vida e suas melhores estórias. A pomba dá a Lúcia o que ela espera das tardes ensolaradas entre os goles do chá, alguns olhares e um pouco e atenção.