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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Delírios risíveis


John chega ao fim da rua estreita, para na esquina movimentada e abre a mochila de couro surrado à procura de seus cigarros. Percebe que do outro lado da rua vem uma amiga dos tempos que tocava violão em uma banda. "Maria ou Amelie?" - Pensa confuso acendendo o cigarro. Era ruiva, vestia um vestido vermelho e andava rápido em sua direção. "John quanto tempo!" - Diz a mulher ao abraçá-lo. "Seu aniversário não foi ontem?" - Pergunta cabulada pela falta de animação do amigo. "Sim, completei 34 longos invernos" - Diz soltando fumaça pela boca. Ao terminar a dolorosa frase que diz ao mundo sua idade, a ruiva, Maria ou Amelie, some da frente de John como a fumaça que acabara de soltar.

[Texto e pitura meus . :)]

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Impessoalidade

Enquanto explica suas dores e seus distúrbios, procura em seu íntimo conformidade e explicação para os desenganos alheios. Não os desenganos dos outros, esses pouco importam, mas sim os próprios desenganos que se figuram alheios pela distância que tem do "eu" exposto a qual chama de "verdadeiro eu". A vida simples que seu "verdadeiro eu" leva aos empurrões de sonhos comuns é fácil de corrigir, analisar, mudar e encarar.

Os destroços da figura interna são complexos e merecem atenção. Não a atenção da senhora pseudo-intelectual que o escuta por horas pagas no fim do mês. Continua indo às sessões por gostar das tentativas falhas de entendimento de seu "verdadeiro eu". Seu "eu" íntimo, problemático, inatingível é só seu, de mais ninguém.

A conciliação entre os desejos mórbidos de sua personalidade fácil com seu outro "eu" denso tem de ser auto-concebida, e não proposta por estranhos que nunca encostaram no núcleo do átomo purgante e explosivo.

Suas prosas públicas feitas em grupo escondem o mal sujeito que não vê solução. O "eu" simples funciona como esponja de caracteres recebidos. Sonhos, vontade, desapegos e ódios ditos entre assuntos irrelevantes são sugados e expostos futuramente. Não há verdade. Frente ao mundo corrosivo melhor expor coisas boas, comuns.

O "estranho eu" fala ao ouvido nos momentos solitários, provoca pensamentos de crise, indaga sobre a falsa reputação, fere. Não vendo solução o torna alheio.


segunda-feira, 23 de março de 2009

Devaneios aleatórios

Entre as dúvidas e as certezas: o cigarro após o almoço.

Os sonhos não existem desde que o relógio sutilmente ordenou que o dia começasse.
A vida tem suas curvas, seus segredos, suas cores.

O amigo da fila se transforma em pensamento quando não está presente.
Existem pessoas que são apenas necessárias por algumas horas, são mais eficazes como rastros de lembranças.

A escada define o caminho.
Seus músculos e suas pretensões dizem se é possível e necessário.

Cenas jamais se repetem.
Uma gota de água que cai do teto com infiltração pode mudar uma vida.
Uma cena se transforma por menos.

Os homens sujos procuram com olhares o que lhes é imposto.
A necessidade tem suas exceções.
Regras já nascem quebradas.

O cigarro após o almoço acaba.