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domingo, 10 de janeiro de 2010

Florista


Filiou-se ao partido dos corações partidos em janeiro de 1987, quando Rogério morreu afogado em um mergulho de verão. Desde lá mantém ao aquém suas vontades mais íntimas de amor verdadeiro. Vive só, num quarto alugado decorado com desenhos feitos à carvão que se acariciados perdem a forma, as linhas, o sentido. Trabalha por trabalhar em uma floricultura que tem seus lucros em coroas de flores vendidas à funerária da esquina. Vende flores com cheiro de morte e cores vivas. Nunca se viu, antes do fim, acabada viva. Pela morte só espera cansada, veste sempre a mesma calça que lava nos fins de semana, fins esses que só servem para lavar a calça. Brinca de fingir com os outros que não a conhecem, com olas, alôs e ois mal pronunciados entre os dentes apertados e o sorriso branco. Vai levando a dor de existir com a esperança de acabar.  Na verdade acredita que não há muitas saídas para os que ainda conseguem apontar para o depois, num depois além de si acredita, mas tem andado até com esse desacreditada. Seria perda de tempo pronunciar-se sobre tudo, mantém-se calada na dor infiel da solidão e da saudade, até.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Impacto

Tão perto de mim que não posso rimar
Tão longe que não se descreve em linhas comuns
Páragafro
Desço inferno, começo novamente
De onde vem é o conflito
é a pessoa
o sujeito
individuo
Repito
De onde vem é o conflito
A coisa propriamente dita brota a cada esquina
Provoca riso, dor e quase nunca indiferença
Quando causa é coisa
Quando não, apavora
Ponto final
Não se descreve, não se entende, só se
PROJETA, PROJETA, PROJETA
à outro mortal na espera de resposta
Que vem, não vem
Importância?
É de outro agora.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Eu te amo, mas não para sempre, desculpe.

"Ao mesmo Deus que ensina a prazo
Ao mais esperto e ao mais otário
Que o amor na prática é sempre ao contrário" - Cazuza


Indo em direções contrárias iam corações contrários. Amor é dor a longo prazo, sabiam, arriscaram. E antes de narrar a separação de duas almas é necessário contar o início dos dias mais coloridos de ambas as partes envolvidas.
Ela Mariana, 23, fotógrafa, ama antiquários, odeia casas verdes. Ele Luciano, 25, artista plástico, ama a chuva, odeia cheiro de morango - não o morango. Tinham costumes diferentes, quase opostos, porém em um dia em que o café frequentado por Mariana e o bar por Luciano estavam fechados resolveram, ao mesmo tempo, ir ao museu da cidade. A exposição parecia mostrar as piores obras do pintor. "Se me der um gato e um balde de tinta eu reproduzo esse quadro" - Luciano disse a Mariana enquanto olhavam para o mesmo quadro e faziam a mesma expressão. Ela riu. Ele a convidou para um café, "O café está fechado!" - respondeu, continuou: "Que tal uma cerveja?". "O bar está fechado." - Respondeu triste Luciano. "Não quer andar um pouco por aí?" - Perguntou Mariana, que ficou encabulada até receber o "sim" amoroso.

O "andar por aí" se transformou em "quer subir?", que depois de algumas semanas virou "quer namorar comigo?". "Brigas todos têm" - Diziam enquanto se abraçavam no fim de alguma discussão. Passaram semanas, meses, então três anos. O namoro parecia ser eterno, mas o cheiro dos perfumes enjoava tanto quanto os olhares. O amor se tornou ódio. E o fim foi declarado em plena estação do metrô.

- Quando você disser que chega às nove, por favor, chegue às nove.

- São só nove e meia Luciano.

- Não to disposto pra brigas, vamos logo?

- Pra onde?

- Oras. Pro museu.

- Não pode ser pro parque?

- Não Mariana. Aquela exposição em que nos conhecemos está lá de novo. E eu acho interessante comemorar três anos de namoro onde tudo começou.

- Ah, claro, mas antes eu preciso te contar uma coisa Luciano.

- Fala.

- Semana passada eu fiquei com o Eduardo.

Eduardo, 27, editor chefe, patrão de Mariana, ama manchas de tintas, odeia gritos.

- "Ficou" em que sentido?

- Nós transamos ora.

- Por quê?

- Não te interessa.

- Ta, já que é assim eu preciso confessar que transei com a Márcia.

Márcia, 29, empresária, vizinha de Luciano, ama barulho de moedas caindo no chão, odeia cheiro de velas.

- Eu não acredito!

Olharam-se, riram e partiram.
O amor não acabou, ele nunca acaba. Muda de nome, de imagem, de destinatário, de sabor, de intensidade. Muda sempre, não acaba nunca.

[Eu esqueci de assinar o desenho quando o terminei, mas é meu.]