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domingo, 7 de fevereiro de 2010

E me diz...

- Eu gostaria de começar com uma morte e fazer assim um romance intenso que ficasse na cabeça das pessoas, entende? Não, não ria assim! É verdade, mas não penso só em vender livros, não mesmo. Penso em tantas coisas... Sabe meu filho, quando eu tinha a sua idade uma mulher disse que me amava. Foi a pior coisa que já me aconteceu, mas como dizem, devemos seguir. A partir disso eu comecei a escrever histórias, e eu acho que as histórias, os contos, os romances, me deixam viver o que eu nunca vivi. Pode parecer ingenuidade, mas quem não finge uma coisa ou outra pra parecer melhor, hã? Enfim, como eu ia dizendo, esta mulher que disse me amar, e que por conforto passei amar também, morreu logo, pouco tempo depois de se declarar para mim. MARTA, ME TRÁS UM CAFÉ? Você aceita um café, meu filho? MARTA, TRÁS DOIS! Depois disso, meus caminhos começaram a desandar, até que descobri que escrevendo eu saia de mim mesmo, foi o remédio mais barato e mais eficaz que encontrei. Na verdade acho que o dia em que eu parar de escrever eu morro, acredite, morro mesmo. Se não for por tédio ou saudade, vai ser por uma faca ou uma dose de veneno. Não se assuste, todos os seres humanos são um pouco suicidas. Sim, mas desta vez eu vou começar o livro com uma morte.


[ficcional]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Impacto

Tão perto de mim que não posso rimar
Tão longe que não se descreve em linhas comuns
Páragafro
Desço inferno, começo novamente
De onde vem é o conflito
é a pessoa
o sujeito
individuo
Repito
De onde vem é o conflito
A coisa propriamente dita brota a cada esquina
Provoca riso, dor e quase nunca indiferença
Quando causa é coisa
Quando não, apavora
Ponto final
Não se descreve, não se entende, só se
PROJETA, PROJETA, PROJETA
à outro mortal na espera de resposta
Que vem, não vem
Importância?
É de outro agora.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tão perto

Eu postei no outro blog e deu vontade de pôr aqui também.
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Esqueço a menina que chora ao meu lado no banco do parque, esqueço o sofrimento da velha reumática que se empurra contra a idade pela ciclovia, esqueço a dor de viver a esperar o momento certo de levantar-me, abrir o guarda-chuva, e partir.
Vivo o trigésimo terceiro ano de minha estadia neste planeta, e o momento exato de partir nunca se mostrou para mim. Entenda partir não só como ir para algum lugar, mas sim libertar-me de certo modo.
A chuva chega, vai, e eu continuo, não literalmente é claro, parado em um banco de praça. Tenho minha vida, meus amores, meus ódios e até meus segredos, mas nunca pude dizer que levantei do banco da praça e parti.
Sempre vivi a observar e sentir os outros. Se alguém cai de uma bicicleta não levanto para ajudar, apenas sinto a dor das feridas que a queda abriu. Caso alguém ganhe qualquer coisa, fico extremamente feliz. E se perde, fico triste por dias. Assim vou indo, olho a chuva e imagino friamente me molhar.


sexta-feira, 6 de março de 2009

Cinzas

Quem define a beleza de seus passos são os sapatos que te suportam.
Trocaria sua vida de fama e sucesso por um amor?
Compraria morangos silvestres com o dinheiro destinado ao copo de rum?

O menino baila no salão vazio, sem música, sem companhia, sem vontade. É necessário manter o posto! É necessário morrer a cada esquina?

A vida é sua, lute por suas causas! Cause em suas lutas. Esqueça de mim, meu problema é a falta de interesse em suas causas e em todas as nossas conseqüências.

Em uma das festas falsas - que não divertem - perguntaram se está tudo bem. Tudo nunca está bem, meus queridos, nunca. Porém, por alívio de consciências, saibam que da cabeça para baixo tudo está em ótimo estado.

_
Frases que vieram soltas depois de um filme qualquer.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Atrás de um sorriso.

As coisas estão em seu estado normal e prontas para serem abandonadas na solidão fulminante de algumas horas sem seu dono. A mochila é posta, o tênis amarrado e a preguiça ignorada. "Não esqueça as luzes acessas e as portas destrancadas menino!" - Disse quando partiu. O pedido de cuidado com as luzes é ignorado, não as acendo quando não são necessárias. A porta é trancada após a leve meditação que me leva por todos os cômodos e me assegura, mesmo sem certeza, de que nada esqueci. Parto.

O ônibus é pego as pressas, tenho que chegar a uma da tarde. Solto, ainda é meio-dia. A corrida até o ponto do próximo ônibus me cansa. Como pode um menino de 18 anos estar cansado com uma mísera corrida? Como pode um menino de 18 anos correr cansado para o ponto de ônibus? Como pode um menino de 18 anos fumante não cansar ao correr no sol de 40º do Rio de Janeiro? O segundo ônibus foi pego, e nele aconteceram coisas maravilhosas, consegui voltar a respirar normalmente, por exemplo. Depois de 25 minutos eu já fazia parte do ônibus, estava lá sentado com os cabelos ao vento e com o olhar fixo na paisagem que se movia rapidamente. O sol e o morro não eram tão rápidos ao passar quanto as casas e lojinhas de beira de estrada, só pra constar. Cheguei por lá às 13:01, fui correndo por cima da grama que desde sempre não se pode pisar. "Não pise na grama", "Não fume" e o mais importante "Não pense, nem sob tortura". Cheguei, disse "Boa tarde", responderam-me simpaticamente. Às duas horas e meia que seguem o "Boa tarde" são coisas minhas, pulemos. Ao sair consegui tirar umas fotos do lugar, não pretendia ilustrar esta crônica e naquele momento, pra falar a verdade, nem imaginava esta crônica.


Mais um ônibus em meu caminho, porém este com um gosto diferente, gosto de vitória, de parabéns, de tranquilidade. As mesmas paisagens passavam em minha janela, entretanto agora com os tons de laranja, vermelho e amarelo que o sol lhes dava e na direção contrária. O calor dentro do ônibus era inebriante, unificador. Todos diziam "Que calor!", a sensação era geral, então no ápice das reclamações ao astro que nos mantém funcionando me foi incontrolável sorrir para a menina que tentava cantarolar qualquer coisa no colo da mãe.

_
Certas coisas não precisam que seu sentido seja exposto como troféu a todos que as vêem. Se não faz sentido para você, continue nesta rua e vire à esquerda.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Enquanto não chove.

A simplicidade da cena torna-a bela, não mais que suas personagens, mas bela. O quarto é bastante tradicional, assim como fora Lúcia em sua juventude. Lúcia não é mais tradicional, não é mais jovem. Lúcia vive só, um "só" relativo, um "só" de pessoas. Tem a companhia constante e bastante significativa de uma pequena pomba. Não é branca, não é bela, não é. Assim como Lúcia a pomba faz questão de não ser.

Lúcia e sua pomba têm encontros diários, geralmente à tarde, quando o sol alaranjado entra no quarto apertado onde Lúcia dorme e vive. Lúcia conta a pomba coisas de sua vida e suas melhores estórias. A pomba dá a Lúcia o que ela espera das tardes ensolaradas entre os goles do chá, alguns olhares e um pouco e atenção.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Se errado é;

Não fosse a raiva, rimaria,
E faria belos
Os versos mortos

Do poema a cá
.

Rimar engrandece,
E não pretendo jamais
Engrandecer

Um poema tolo
.

Ouvi dizer
,
Que primeira pessoa não pôde.

E daí?

Eu não ligo, eu não ligo.


Não quero poesias famosas
,
Tão menos

Famosas poesias,

Que mudam a ordem sem mudar o significado.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Operação tigre de bengala;

Não que fosse necessário, afinal não era. Gostava de ser assim, sentia até certo prazer na impessoalidade que demonstrava com as pessoas ao seu redor. Sua mãe odiava algumas de suas atitudes, "Que menino hipócrita!" - dizia. Não era mais menino era homem feito. Não era hipócrita era abobalhado. Tinha suas atitudes milimetricamente calculadas, e quando alguma coisa dava errado: "Eu esperava por isso!" - exclamava confuso.

Vez em quando tinha algum plano complicado, e gostava de dividi-los com seus amigos, imaginários, que estavam sempre por perto. Dava nomes as coisas, seus planos sempre tinham, chamava-os com alguns nomes que via nas operações policiais da tevê. "Operação tigre de bengala" - Foi o nome que mais adorou, tanto que teve continuação: "Operação tigre de bengala dois".

Tinha 27 anos quando sua mãe morreu, ou melhor, matou-se. Nunca soube o porquê, preferia não saber. Foi viver com a Tia Adelaide. "Megera!" - Pensava alto. Não via a hora de por o plano em prática e fugir dali. Dizem que por pressa o nome da operação foi só "Fuga" mesmo.

sábado, 27 de dezembro de 2008

D. Estefânia; 1

“Era moça simples e estudiosa, usava roupas comportadas e de cores neutras e ia à igreja diariamente.” – Cochichou a gorda para D. Estefânia dentro do ônibus.

“Você está se referindo a filha do Seu Manoel” – Perguntou confusa D. Estefânia.

“Ela mesma. Dizem que agora trabalha em bordel!” – Respondeu a gorda com cólera.

“Acho ótimo quando os jovens se interessam cedo pelo trabalho” – Disse contente D. Estefânia.

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Indico?
O rouxinol e a rosa - Oscar Wilde
(Clica no título do conto para baixar)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Who was born?

Não, ninguém nasceu, e se nasceu não se orgulharia do que é feito.
“Alguém me ajuda a rechear o peru?" - Disse ela purgando de felicidade.
Teu peru recheado não faz questão de participar da celebração! Nem colocaram o nome dele no amigo-oculto.

Cansei de Natal.

- Aceita um Dry Martini?
- Sim.

Depois de dois diálogos exatamente iguais ao que escrevi acima, me vi aos papos com a viúva, de marido vivo, ela preferia o imaginar morto. Falávamos de consumismo. Falávamos de Dry Martinis. Falávamos. Era Natal. "A festa cristã!" - A viúva exclamou com felicidade. Fechei os olhos por um estante. A viúva frígida achou que não a ouvia - não a ouvia mesmo - e saiu de perto praguejando todos do mundo. A meia noite a viúva desejou-me "Feliz Natal".

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