Não fosse a última cruel evidência, os assassinatos do bairro não seriam descobertos. Tudo começou quando o pobre Romeu apareceu moribundo no portão de dona Zuleica. Romeu era um gato sério, desses que não se dão aos infortúnios acometidos pelos outros felinos do bairro. Nunca ouvi o pobre gato se quer miar em meu telhado. O coitado, aparentemente envenenado, foi o primeiro de uma sucessão de crimes cruéis. Sem explicação, o defunto foi posto em um saco plástico e levado pela coleta pública de lixo.
Em uma segunda-feira chuvosa o segundo a perder a vida foi Reginaldo. Era um gato esperto, filho de legítimos siameses. Nunca dera trabalho a sua jovem dona. Foi aos prantos que Ritinha recolheu, em um misto de nojo e tristeza, seu amado Reginaldo. O gato teve o funeral que mereceu. Lápide e velas enfeitaram o jardim de Ritinha até o tempo tornar-lhes lixo.
O medo e a insegurança eram perceptíveis no olhar de todos os gatos que passavam por mim. Sentia dó ao me imaginar em suas peles peludas. Senti tanto que me pus a buscar informações relevantes sobre as mortes inexplicáveis do bairro. Mortes sucessivas ocorreram sem adicionar nada interessante à minha investigação, apenas que gatos morrem fácil demais.
De minha janela da sala de estar posso ver o quintal de seu Roberval. Senhor honesto e bastante querido nas redondezas, como aqueles que distribuem pirulitos e deseja "bom dia" a deus e ao mundo. Enfim, em minha observação matinal regada a café amargo, deparei-me com uma cena um tanto esquisita. Pude ver o bom velho nas pontas de seus carcomidos pés colocar uma pequena vasilha preta em cima do muro que protege sua casa dos desprazeres da rua.
Tenho a árdua tarefa de levar seu Roberval de carro toda quinta-feira à farmácia da cidade. Tendo em vista os melhores preços para seus remédios vitais e a pouca mobilidade de seus ossos, levo-o até lá por puro filantropismo. Em nossa última ida ao centro pedi a ele que me deixasse analisar suas orquídeas. Puro bom humor, deixou-me sem retrucar. Quando voltamos, estacionei em seu portão e adentramos em sua casa. Com seu lento caminhar e a necessidade de guardar os remédios comprados andou em direção a porta da casa e me deixou esperando-o voltar para dissertar sobre suas orquídeas. O tempo foi mais que necessário para eu descobrir que no seu vasilhame em cima do muro tinha muito mais que comida de gato. "Seu Roberval é um assassino!" - Pensei com cólera, porém antes de desmascarar o inescrupuloso Roberval, escutei sua explicação sobre as orquídeas e tomamos um delicioso chá com biscoitos juntos.
De novo, de braços abertos!
Há 5 dias


