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quarta-feira, 21 de abril de 2010

As pérolas

Cortou-lhe as mãos como castigo eterno por roubar-lhe a simpatia. Moça bem criada com as bochechas rosadas e mãos para a costura. Como puderam fazer isso com ela? Se for errado indagar mais então deve ser interromper. Arrastou o vestido com as pernas trançadas de nervoso e caiu. Tombou torta no chão para arrebentar o cordão de pérolas que sobrou da herança. Rolaram as pérolas e as lágrimas sob o olhar maternal do céu.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pingo

Só fecha a janela quando pinga em seu ombro. Hermeticamente fechado em seu cinismo trágico. Eu olho, olho de longe. Eu não. Finjo surpresa na cólera alheia, amarro a cara, volto pro livro.
Onde eu estava? Qual era a linha, o ponto, o espaço?
A negação do silêncio nos permite se encontrar. A troca rápida do diálogo exige atenção fervorosa. Onde estão os diálogos pensados? Ao menos passem de uma linha seus cretinos! Estetas forçados com piercing de ouro no umbigo. A gema da à liga, da o cheiro e a cor. Depois do forno nem parece ovo.

sábado, 27 de março de 2010

Dona Rosa

Foi em um movimento quase teatral que aumentou a distorção dos passos por ver de longe o ônibus laranja com letreiro eletrônico, que desejava boa tarde e não esperava a resposta. O motorista, por problemas técnicos ou sadismo, parou longe, há uns cinquenta passos da pobre velha. Ela em pura cólera praguejou o motorista em cada um dos passos que deu até a chegar à porta do ônibus. Subiu as escadas balançando o cabelo meio rosa meio vermelho que aparentava uma tentativa falha de ruivo e jogou o dinheiro na mão do trocador. Antes de qualquer resposta, reação ou pensamento a velha de cabelo manchado e sacolas pesadas lançou-se contra a catraca e falou alto que não queria troco. Eu calado participei do momento trágico-cômico quando Dona Rosa se sentou ao meu lado e por toda a viagem me instigou a concordar que os motoristas dos ônibus laranjas não prestam.

domingo, 7 de março de 2010

Escada

Deu meio passo afobado e subiu a escada correndo numa mistura de fuga e desespero. O pé no patamar foi para ele como uma bandeira fincada no mais alto pico do mundo. O que baseavam suas crenças havia ficado no pé da escada junto do fracasso de ser verdade. Estar no "sobre tudo" era como uma droga correndo na veia, não havia dor, não havia mágoa, a temperatura não importava, só respirava o perfume da glória inventada. Apesar da voracidade do momento ele olhou as mãos tremulas e soltou o mais alto grito que foi capaz de dar. Permitiu-se gritar, fez de si o seu direito.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Estático

Sobre a engraçada podridão do tédio vespertino acolheu suas ideias mais ousadas de passagem de tempo e dedicou-se ao acaso. Acompanhado da inexperiência da solidão viu-se em meio a um turbilhão de possibilidades inexpressivas ao mundo que não o empolgavam pela fragilidade de suas proporções. Pôs-se fugitivo em si e acasalou o ócio com a preguiça frente à televisão ligada constantemente. Pelos minutos passados enquanto a desculpa de descanso foi válida não se culpou, a partir, porém decidido pela autovergonha espetou-se agulhas imaginárias compostas de expressões de ânimo. Insuficiente em si não mexeu os braças físicos nem qualquer outra parte do corpo esticado em posição de morte. Disperso em pensamentos e com o olhar fixo na tela colorida não se deteve em imaginar os possíveis desfechos do dilema trágico/desestimulante de fim de tarde, apesar das esperanças nenhuma hipótese criada foi interessante o suficiente para erguê-lo.

"Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se esfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo! Que horror! Jardim inculto em que só medram ervas daninhas, cheio só das coisas mais rudes e grosseiras."

Hamlet - Ato 1, Cena 2.


domingo, 10 de janeiro de 2010

Florista


Filiou-se ao partido dos corações partidos em janeiro de 1987, quando Rogério morreu afogado em um mergulho de verão. Desde lá mantém ao aquém suas vontades mais íntimas de amor verdadeiro. Vive só, num quarto alugado decorado com desenhos feitos à carvão que se acariciados perdem a forma, as linhas, o sentido. Trabalha por trabalhar em uma floricultura que tem seus lucros em coroas de flores vendidas à funerária da esquina. Vende flores com cheiro de morte e cores vivas. Nunca se viu, antes do fim, acabada viva. Pela morte só espera cansada, veste sempre a mesma calça que lava nos fins de semana, fins esses que só servem para lavar a calça. Brinca de fingir com os outros que não a conhecem, com olas, alôs e ois mal pronunciados entre os dentes apertados e o sorriso branco. Vai levando a dor de existir com a esperança de acabar.  Na verdade acredita que não há muitas saídas para os que ainda conseguem apontar para o depois, num depois além de si acredita, mas tem andado até com esse desacreditada. Seria perda de tempo pronunciar-se sobre tudo, mantém-se calada na dor infiel da solidão e da saudade, até.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Praia


Passinhos leves contra o mar por força grande contra as ondas. Sol abóbora com céu manchado de fim de tarde. Viu marrom pelas lentes dos óculos antigos. Não deixou balançar a bolsa simples feita de um pano estampado. Mão na água feita a alisar o mar. Evaporou a sensação de brisa fresca. Sentiu sorriso, segurou algo pulsante por dentro. Nuvem branca migrando pro ali puxando pássaros organizados em triângulo sem base. Ela viu.



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Feliz ano novo.

sábado, 28 de novembro de 2009

Espera

Parado em espera teoriza a situação. Vê o mesmo homem passando duas vezes na mesma direção com um menino no colo. Encenação forçada. Figurantes sem vontade. Corre os olhos pelo rapaz torneado que o admira com desejo. Indaga-se. Admite. Perde-o de vista.
A espera continua no topo da escada. Troca de posição, encosta na parede. O chiclete sem gosto passeia entre os dentes elogiados pelo dentista da família. Nunca precisara de aparelho, orgulha-se. Lembra dos óculos guardados e dos graus irregulares de cada olho, fica feliz por não ter oftalmologista de família. Com um abraço apertado e um elogio pelo corte de cabelo a entrega começa e a espera termina.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Do sofá

Por gotas contadas e goles amargos veio a tarde sem sal, de um mundo pequeno, opaco e sem vontade. Percorreu os canais da televisão e nada, absolutamente nada. Sozinha admirou a janela canelada de visão abstrata e sem cores. Percebeu dois carros passando rápidos em fuga. Para onde vão? Em qual esquina fica a dobra necessária para um destino certo? Levantou-se rápido na tentativa de vê-los. Não os viu. Abrira a porta por nada, fingiu para ninguém que apenas fora dar "oi" ao cachorro bobo que sempre a olha com olhos de sono e fome certa. Entrou rápido guardando no bolso a frustração. Bolso cheio. Jogou-se novamente no sofá dessarumado e querendo, porém sem grandes demonstrações, tocou-se ligeira. Resumida tentação de se amar, de ser amada. Não consegue preencher-se sozinha, tentar virara ritual. Histórias loucas passam em seus olhos enquanto se expande em si mesma. Sorriso bobo. A apresentadora do programa chato pára e a olha com repulsa e castidade. Sente-se culpada, suja, satisfeita.

O toque do telefone interrompe o transe do banho desnecessário. Não atende, imagina. Algum parente morto, algum convite chato ou talvez uma ótima proposta. Arrepende-se. Fecha o chuveiro, enrola-se na toalha rosa e sai pingando do Box na esperança de uma nova tentativa do telefone. Nada. Em plena cólera joga a tolha sobre o mesmo sofá que fora há minutos seu amante e deita no chão. O latido do cachorro impõe a realidade. Olha a sala pelos cantos dos olhos e imagina-se no meio do nada. Do vazio. De um espaço branco. Paralisa. Dorme solitária.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Fumaça

A tarde caia quente soprando um vento morno e deixando os corpos agitados. Um bonde barulhento acendia as luzes enquanto passava frente a um bar meio vazio. As crianças libertas da última aula que tiveram conversavam alto enquanto faziam uma garrafa de bola e chutavam-na entre si. Um homem de sandálias passava no portão enferrujado da casa antiga enquanto respirava fundo. Um cheiro forte de fumaça tomava conta de todo o bairro. Por um segundo tudo parou, o vento, o bonde, as crianças, o homem e a fumaça. Ela se olhou séria diante do espelho e virou eternidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Rufus

Deu sono antes do final trágico, dormi sem a imagem da mocinha sendo morta por uma faca de pão. Os sonhos teriam sido melhores? Ter o desprazer de me colocar no lugar do assassino simplesmente por não ter assistido o final do filme não compensa os minutos a mais de sono que tive, tão menos os pesadelos recheados de gritos e sangue. Enfim, não sei por que, mas acabei acordando sorrindo, coisa que não acontece há bastante tempo.

O dia inteiro foi dedicado ao medo adormecido desde a morte de meus pais da existência de um possível assassino frio e sanguinário vivendo dentro de mim. "Oras, se for para ser, que seja!" - Pensei no fim da tarde, depois me senti um tanto medíocre por achar que devo matar alguém para ser assassino, e me deparei com a seguinte dúvida: "Assassinos decidem que são assassinos antes de matar, ou matam e vêem que são, ou matam, matam e matam e não fazem questão de se entender?". Por ter lido umas coisas de Freud nos últimos dias acabei caindo em uma auto-análise sobre o meu eu assassino que apelidei de "Rufus". Perguntei-me se mataria alguém próximo, Rufus disse-me que não, perguntei-me se mataria uma criança, Rufus respondeu-me que não, enfim, perguntei-me se mataria a mocinha do filme com uma faca de pão, Rufus respondeu-me meio encabulado também que não.

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Escrevi e ilustro (leia-se: fiz a pose boba pra foto) o texto, mas não, não tenho Rufus ao meu lado. Inté

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Banho

Estava escrito e terminado, mas ligado à mim como as coisas que ainda não concluí. Não é mais meu, libertei-me, agora fica aqui como ponto final.

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Água gelada, fria como a vida que leva junto ao marido e os dois filhos. Teve a mão a faca e cortou o queijo, arrependeu-se amargamente. Empurrou aos cantos da alma os sofrimentos e passou forte o sabonete onde é limpo por definição. Apoiou-se no azulejo quebrado, o único que a compreende por completo entre tantos outros perfeitos e azuis, arrogantes em sua simplicidade. Nunca tentara alcançar a simplicidade, sempre tentou o importuno, o difícil, não conseguiu jamais. Fechou a água e se sentou no chão para tornar o momento um pouco mais demorado. Sentiu o piso frio gelar a superfície da pele, amou-se onde a pele tocou o solo. Jogou ao chão sua dor, seu corpo. Cabe-se dentro de si, não se põe para fora como a personagem do livro que lera na tarde anterior, - esperava os filhos saírem do colégio quando leu a última página, a personagem virou eternidade nas frases mal arrumadas pelo autor - e ela boba, não era frase, nem livro e nem eternidade, no máximo era banheiro. Tinha ao corpo a pequena partícula que forma tudo e não conseguia sentir-se nada.
Passos fortes sobre o assoalho procuravam por ela. Teve medo, ergueu-se rápido. Caso perguntassem sobre o vão momento em que ficará em banho sem o barulho de água responderia que penteava o cabelo, caso perguntassem se o cabelo fora bem penteado diria alegre que sim. Não chamaram por ela, não a quiseram. Os passos ignoraram sua mediocridade. Era ótima frente ao fogão, sobre a máquina de lavar, e mais ainda sobre a tábua de passar. Não sendo necessária comida, roupa limpa ou passada ela não se fazia necessária. Riu, fechou a água e voltou a se sentar.
Teve medo de morrer, não de morrer, de não continuar após morta. Disseram-na quando criança que basta dez anos após sua morte para que seu nome e sua reputação vão para junto do resto do corpo embaixo da terra. Não quer seu nome junto de si sob a terra. O medo orgânico de deixar os filhos para alimento do mundo não existe, nunca existiu para ela, saíram do ventre não da alma. Não eram dela, nem de ninguém. O marido bobo que nunca descobrira sua verdadeira face tão menos importava. Queria algo mais, levantou. Ter medo da morte assegura que a vida deste jeito então é boa. Não é, e não faz sentido.
A irmã gorda que acha ter certeza de tudo, e que está sempre certa, impõe uma aceitação que não quer mais ter. Distanciou-se da irmã por alguns meses e mesmo longe seus atos eram para ela, seriam aceitos? Seriam? Não importa o arroz queimado, o que importa é se entenderão que o arroz queimou por um descuido humano, passível de ser cometido até por sua irmã. Achava-a inteligente, irritante, irônica, superior, mas quando por perto demonstrava amor fraternal. Seria esse seu propósito, viver à sombra da irmã que não faz idéia de seus atos.
Trocou a temperatura do chuveiro com leveza majestosa, a água expelida agora será quente. Tentativa falha de se sentir mais aconchegada esqueceu de abrir a torneira e se perdeu em mais alguns pensamentos. Terá ela comprado presunto suficiente para o jantar? O tempo que resta para as seis da tarde acompanhará o preparo do assado? Como será o oposto do que sinto? Inevitavelmente deixou-se cair novamente no chão. Desta vez sem tato caiu meio deitada meio ajoelhada sobre o próprio corpo. Amargou-se por não ter o livro da tarde anterior ali perto, gostaria de lê-lo, fugir da realidade, sumir entre as páginas. Não o tendo tentou inventar uma estória qualquer, fazendo de si a personagem principal. O único roteiro a que conseguiu adaptar seu personagem era o da própria história, chata, sem aventura nem animação. Seus sonhos quais eram? Poderia ter realizado algum em pensamento, trocado alguns detalhes ou arrumado os finais. Saber quais são é difícil. Achou então que precisa de uma psicóloga, um psicanalista, um analista, ou algo assim. Desistiu em seguida por medo de descobrirem o tempo que desperdiçou no banho para decidir que precisava disto. Levantou torta com as pernas dormentes, segurou-se firme na prateleira para conseguir ficar plena de pé, ficou. Saiu do box meio tonta, triste e já seca.


sábado, 11 de julho de 2009

Meio-fio

Vento quente e passos rápidos. Bolsa de papel apertada contra o peito e vestido na altura dos joelhos com estampa de florzinhas que de longe parecem bolinhas coloridas. Bola rola nos paralelepípedos quentes, são férias. Mulheres cansadas com suas vidas na boca conversam por cima dos muros baixos. Ela passa rápido e olha para o chão concentrada tentando descobrir o assunto. Um caminhão que vai entregar a cama nova da vizinha passa pela rua e arrebenta um dos fios de eletricidade. Ela passa, mas ninguém vê.

sábado, 4 de julho de 2009

A bússola aponta sempre para o norte

Pensou nos filhos sem futuro, pensou no choro da esposa, lembrou até dos latidos importunos do cachorro durante a noite e continuou a andar. Não andava por liberdade, não mesmo, andava tentando achar um rumo, uma direção. Perdia-se toda vez que olhava para o céu, tinha inveja das nuvens, do azul, do nada. Pisava em passos firmes, afinal não ter um rumo não era desculpa para não ser intenso. No sapato carregava dedos ativos e animados que se mexiam entre os contatos do sapato com o solo. Estava em êxtase constante, o que era difícil explicar para um sujeito mal letrado e com uma vida tão sem..., sem..., enfim, sem. Cogitou diversas vezes durante seu percurso a não existência de um rumo a seguir, sendo esse o único caminho verdadeiro. Desistiu de cogitar, cansava demais. Já lhe mostraram alguns caminhos alternativos, a maioria com salvação espiritual no final, ele simples não se importava com o final, mas o que viveria até chegar lá, agradecia e continuava a andar. Divertiu-se quando lhe fizeram uma proposta para a venda de sua alma; "Chefia, não posso vender uma coisa que não sei se tenho no estoque." - Respondeu maroto. E sem muitas explicações e algumas dores que fez questão de enfrentar, ele morreu.

sábado, 27 de junho de 2009

Cama

O sopro doce sobre a pele macia, a música cantada bem baixinho e o cheiro forte de terra molhada. Chove lá fora, de cinza a paisagem já familiar, amiga, é tingida. O mundo pára entre as piscadas demoradas do olho caído. Pode ser que quando acorde esteja frio e sem chuva, se sim, sairá para terminar de decorar a casa que faz para o gato que vai ganhar de aniversário, ou pode subir na árvore que admira há anos pela janela de seu quarto.
O pé sente o lençol macio e a mão puxa a mão da mãe como se fosse ela o melhor cobertor do mundo. Sente-se seguro para dormir durante a tarde, pensa que talvez os monstros que podem oferecer perigo durante a noite podem estar ocupados demais para se interessar em perturbar seu sono vespertino.
Como não pode ser feliz? Ouvira o pai falar da existência de muita tristeza no mundo, não consegue entender, sente-se culpado. Seria ele a exceção ou mais uma anomalia? Não vê defeito no mundo e alegra-se quando as coisas não vão como devem ser, não tem medo do futuro. Será egoísmo? Por possuir muitas coisas, física e emocionalmente, ficara indiferente à tristeza do mundo? "Criança não precisa pensar nisso menino!" - Respondem sempre que pensa alto. Não pensa alto, nem fala sozinho por defeito, só gosta da sensação de conversar consigo mesmo. Dorme enfim.