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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

2.169 passos.


Tenho em mim a certeza de que poderia ter feito de forma diferente. E ainda nem o fiz. Este sentimento angustiante tem me perturbado constantemente e não sei mas o que fazer.

Em soluções pensei algumas, nada tão relevante, nada milagrosamente solucionador. Perco dias andando neste apartamento imundo com uma caneca vazia na mão. Poderia fazer um café, poderia fazer uma análise psicológica, podia até fazer um café enquanto analiso tal mesquinha ação psicologicamente. Não o faço, nem o farei. Sou indolente, sei disso. Não me importo, acho até que já perdi alguns quilos andando de canto a canto no "AP" 201.

A campanhinha não toca há dias, acho que está competindo com meu telefone, uma daquelas brincadeiras de quem falar primeiro perde, estão empatados. A televisão não sintoniza mais um maldito canal, devem ter cancelado a assinatura. Fica o dia todo a mostrar-me belos e dançantes pontos pretos e brancos, já até me afeiçoei a eles.

Acho que ontem lá pelas cinco da tarde resolvi contar meus passos. Contei 2.169, cansei. Pelas oito da noite decidi dar alguns pulos, confesso que foram divertidos, mas às 8:05 Dona Evarista estava cutucando o teto (leia-se meu piso) com um cabo de vassoura, parei. Não me recordo à hora exata, deve ter sido entre as 10 e 11 desta manhã, fui até a janela da área de serviço e em três dias foi o único momento em que parei. Na janela de um apartamento do bloco de trás pude ver o filho do síndico a neta de Dona Evarista e mais um guri aos beijos e abraços. A cena me interessou, consegui abrir até um sorriso, mas quando os meninos me viram a admirá-los, eu um bardo de 32 anos considerado louco por todo o condomínio, fecharam assustados a cortina do quarto. Pena, voltei a andar.
Justificar
Lucas Moratelli, Rio 19/01/09

A belíssima foto, dos meus pés, foi feita e tratada por: Tainá Oliveira

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Operação tigre de bengala;

Não que fosse necessário, afinal não era. Gostava de ser assim, sentia até certo prazer na impessoalidade que demonstrava com as pessoas ao seu redor. Sua mãe odiava algumas de suas atitudes, "Que menino hipócrita!" - dizia. Não era mais menino era homem feito. Não era hipócrita era abobalhado. Tinha suas atitudes milimetricamente calculadas, e quando alguma coisa dava errado: "Eu esperava por isso!" - exclamava confuso.

Vez em quando tinha algum plano complicado, e gostava de dividi-los com seus amigos, imaginários, que estavam sempre por perto. Dava nomes as coisas, seus planos sempre tinham, chamava-os com alguns nomes que via nas operações policiais da tevê. "Operação tigre de bengala" - Foi o nome que mais adorou, tanto que teve continuação: "Operação tigre de bengala dois".

Tinha 27 anos quando sua mãe morreu, ou melhor, matou-se. Nunca soube o porquê, preferia não saber. Foi viver com a Tia Adelaide. "Megera!" - Pensava alto. Não via a hora de por o plano em prática e fugir dali. Dizem que por pressa o nome da operação foi só "Fuga" mesmo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Who was born?

Não, ninguém nasceu, e se nasceu não se orgulharia do que é feito.
“Alguém me ajuda a rechear o peru?" - Disse ela purgando de felicidade.
Teu peru recheado não faz questão de participar da celebração! Nem colocaram o nome dele no amigo-oculto.

Cansei de Natal.

- Aceita um Dry Martini?
- Sim.

Depois de dois diálogos exatamente iguais ao que escrevi acima, me vi aos papos com a viúva, de marido vivo, ela preferia o imaginar morto. Falávamos de consumismo. Falávamos de Dry Martinis. Falávamos. Era Natal. "A festa cristã!" - A viúva exclamou com felicidade. Fechei os olhos por um estante. A viúva frígida achou que não a ouvia - não a ouvia mesmo - e saiu de perto praguejando todos do mundo. A meia noite a viúva desejou-me "Feliz Natal".

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Normais;

(Estava guardado e eu precisava me livrar dele)

L
ouca! Chego até duvidar de sua superficial loucura. És mesmo louca?
Suas coisas têm arrumação impecável, sua vida já não tão arrumada é. Vive em uma casa alugada, paga pelo filho, que não a visita mais. Dizem por aí, que tentou certa vez interná-la. Fracasso estrondoso teve. A louca da casa alugada de filho ausente organizou greve dentro do hospício. Teve louco se recusando a visitas, alguns não quiseram comer e outros, em admirável loucura, prenderam os médicos em camisas de forças. Tiraram-na de lá, a greve acabou.

Não digo que sua loucura é farsa. Quem me dera deus entender essas coisas da cabeça. Só acho, assim por achar, que a louca não é tão louca assim.
A vi outro dia chegar com uma sacola cheia de laranjas. Que fez esta criatura com tantas laranjas? Mamãe me dizia que laranja é bom pra gripe. Minha louca gripada está?

De fato, não sei se minto ou se mentem a mim. Mas a louca, que usa um casaquinho vermelho que é uma formosura, não saiu mais de casa. "Morreu ou mataram?" - Ninguém se indagou, além de mim.
Ao seu funeral levei flores de laranjeira. Quando me permitiram jogá-las por cima do caixão, cheguei perto, bem pertinho, e perguntei com tom amável: Mulher, és louca?

Lucas Moratelli