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domingo, 29 de agosto de 2010

Ao lado

Estamos juntos no píer do porto, não nos olhamos há alguns minutos. Eu tenho medo de ele já ter partido e me deixado aqui sozinho. Pelos fortes uivos do vento e pela raiva das ondas contra as pedras não posso ouvir sua respiração. O céu está em um tom de cinza que me deixa confortável. Tenho medo de este mesmo céu parecer melancólico à ele. Perguntei-me quando chegamos se este era mesmo o melhor momento para nossa conversa. Não sei. Acho que não. Ele teria ido, caso fosse. Há talvez a possibilidade de já ter ido. Fico confuso. Vou olhar para o lado. Não, talvez seja melhor perguntar-lhe se está bem. No canto esquerdo, onde tem uma pequena praia que em dias de sol serve de diversão para crianças esperançosas, vejo um pescador consertar seu barco. O barco é azul e branco, a areia da praia é branca, a calça do pescador é azul. Ele, o pescador, olha para o barco e parece ignorar o mar. Sinto vergonha. Ele tão familiarizado com o mar, com a vida, com a dor. E eu, sobre o píer, sentindo o cheiro insuportável de tudo isso. Se fosse o homem da minha vida, esse que talvez esteja ao meu lado, de tudo faria para sugar todos os odores insuportáveis que me cercam antes de chegarem ao meu sofrido olfato. Eu por alguns segundos penso em chorar. Resumo calmo, não devo chorar. Não posso chorar. Estou chorando. Criança abandonada na praia em dia de férias. Meu mundo se acaba quando estou longe dos meus pais, as outras crianças tomam sorvete e passam filtro solar. Eu não, estou sozinho na praia, sob o sol, sem nada. A alegria assume o papel de egoísta. Por que eu não posso fazer parte da festa? Quem não me deixa correr por aí sabendo que no fim do dia eu vou voltar para casa e dormir de cansaço assim que encostar na cama? Paro de chorar. Olho para o lado. Ele ainda está. Sorri para mim. Enxuga minhas lágrimas. Pede desculpa e me abraça. Acho que é mesmo o fim.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Bar

Pareceu-me confuso nas palavras, fingi entender tudo com clareza e espanto dando margem a qualquer continuação. Continuou. Acredito que disse alguma coisa sobre mulher, dei-lhe um conselho pronto e prosseguiu. Em certo momento me ofereceu um cigarro, por receio de demonstrar indiferença, aceitei. Ele acendeu o dele e o meu com exatidão e entregou-me desajustado. Depois de duas tragadas fortes continuou seu assunto furado, perguntei-lhe se podíamos sentar. Sentamos. Segurou-me a mão e olhou-me fundo. "Posso lhe confiar um segredo?" - Indagou com os olhos marejados. Ao responder que sim, deixou uma lágrima rolar e me matou por dentro.


domingo, 10 de maio de 2009

Lassidão programada

Suas palavras eram como facas atiradas contra um cadáver. Tão pouca importância eu dei aquele falatório que uma mosca voando sobre um pedaço de pão velho me divertiu e concentrou enquanto Joana falava. Em um fim brilhante, desses que só ela consegue de forma estupenda fazer, deu-me tchau e balbuciou qualquer coisa malcriada. Descontente com a fuga sem despedida da mosca, recolhi o pão e fui deitar.

Não fosse a janela de fronte ao leste não teria o maravilhoso prazer de acordar com a luz do primeiro sol do dia. Ainda cansado e um tanto preguiçoso decidi aos suspiros e bocejos ficar por mais algum tempo sobre a cama. Minha ineficácia mental não permitiu pensamentos muito profundos após a decisão de algum tempo de ócio sobre os lençóis, portanto foi com enorme energia e quase nenhuma conclusão que levantei e fui à padaria. A importância com a aparência e as roupas ficou para trás após a guerra que participei mentalmente, depois de tantas batalhas ganhei a guerra e perdi o prazer pela estética. Ao chegar à padaria, vestindo meu pijama e ostentando meu não-penteado, fui à caixa e pedi dois maços do meu cigarro e um pacote de pão integral. A moça risonha e sem criatividade então fez a mesma piada que ouço há meses: "Pão integral pra cuidar da saúde, ah, e seus cigarros para ter de que cuidar (sorriso)". Medíocre. Peguei minha sacola e fui para casa.

O carro vermelho parado na frente de meu portão denunciou que Joana resolveu voltar para terminar o discurso do dia anterior. "Oh, deus!" - Exclamo sempre que vejo esse maldito carro, força do hábito. Após o "bom dia" e acender um cigarro ela se levantou e ofereceu o isqueiro para acender um para mim. "O que você quer?" - Perguntei, enquanto preparava o café, rompendo o silêncio. Na verdade eu sabia o que ela queria e que não ficaria ali tempo suficiente para beber o café que aceitou, mas mesmo com minhas deduções sempre pergunto, detesto ficar perto de outro alguém em silêncio, meu silêncio é só meu. Com Joana longe e suas reclamações ainda ao meu lado fui tratar de minha vida.