terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Enquanto não chove.

A simplicidade da cena torna-a bela, não mais que suas personagens, mas bela. O quarto é bastante tradicional, assim como fora Lúcia em sua juventude. Lúcia não é mais tradicional, não é mais jovem. Lúcia vive só, um "só" relativo, um "só" de pessoas. Tem a companhia constante e bastante significativa de uma pequena pomba. Não é branca, não é bela, não é. Assim como Lúcia a pomba faz questão de não ser.

Lúcia e sua pomba têm encontros diários, geralmente à tarde, quando o sol alaranjado entra no quarto apertado onde Lúcia dorme e vive. Lúcia conta a pomba coisas de sua vida e suas melhores estórias. A pomba dá a Lúcia o que ela espera das tardes ensolaradas entre os goles do chá, alguns olhares e um pouco e atenção.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Esquadros.



Não fosse o quadro me perderia,
Para sempre
Sem saber
Que o quadro não permite,
Que eu me perca.

La poesia è un percorso per l'anima ¹


¹ A poesia é um caminho para a alma.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Robertos e Marianas;

Tudo começou quando a impaciente Mariana me pediu um maldito emprego na loja de conveniência em que eu sou o gerente. "Sim, claro!" - Respondi. Sabia bem das qualificações da moça, e precisava mesmo de uma operadora de caixa. A vaga foi preenchida e também o vazio que caracterizava a vida da Mariana. Dois meses depois a menina veio-me dizer que voltou a estudar, respondi que achava isso ótimo, mas pouco me importava com os estudos da guria, não conseguia parar de olhar para ela, estava apaixonado.

Em casa não podia deixar Roberto notar nada de estranho comigo. Eu e Roberto já estávamos juntos há quatro anos, ele tinha 27 e eu 26. Ele Trabalhava como enfermeiro em dois hospitais no centro, e faltava só mais um semestre para terminar o curso de medicina e se tornar o Doutor Roberto. "Pouco me importa meu futuro!" - Eu dizia quando ele se punha a reclamar da minha medíocre vida. Eu sei! Era mesmo medíocre, e um tanto chata. Eufemismos me sobram para descrever minha vida, e não pretendo usá-los neste pobre relato. Só basta saber que não tenho nenhuma prática com artes cênicas e, portanto minha paixão foi logo notada por Roberto. Não gosto de mentir. Na verdade eu gosto, mas alguma coisa me fazia falar a verdade. E falei! Roberto riu, mas quando afirmei a hitória toda, ele ficou pasmo. "Você transou com essa putinha?" - Roberto me perguntou com raiva. Disse que não, ele se acalmou, e disse-me que era para eu parar logo com isso. Fui dormir depois do ataque raivoso do Roberto, e sabia que no dia seguinte a primeira coisa que ia fazer era falar com a moça.

Quando acordei não tinha mais ninguém em casa, só eu e a foto da Edith Piaf parecíamos vivos no quarto. Tomei banho, me vesti e fui trabalhar. Não lembro ao certo a conversa que tive com Mariana, mas sei que alguns minutos depois estávamos transando no estoque. Não foi tão bom quanto imaginei. Nada estava bom, todas as minhas frases relacionadas à minha vida vinham com o belo fragmento "vai melhorar" no final. Enquanto eu me recompunha no estoque, decidi. Saí de lá e fui pedir demissão. Tinha algum dinheiro no banco e um passaporte que me deixava morar na Europa. Desisti de Robertos e Marianas. Vivo hoje na Holanda, moro com uma velha senhora que não me cobra aluguel, só pede, às vezes, que lhe invente algumas histórias.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Se errado é;

Não fosse a raiva, rimaria,
E faria belos
Os versos mortos

Do poema a cá
.

Rimar engrandece,
E não pretendo jamais
Engrandecer

Um poema tolo
.

Ouvi dizer
,
Que primeira pessoa não pôde.

E daí?

Eu não ligo, eu não ligo.


Não quero poesias famosas
,
Tão menos

Famosas poesias,

Que mudam a ordem sem mudar o significado.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Operação tigre de bengala;

Não que fosse necessário, afinal não era. Gostava de ser assim, sentia até certo prazer na impessoalidade que demonstrava com as pessoas ao seu redor. Sua mãe odiava algumas de suas atitudes, "Que menino hipócrita!" - dizia. Não era mais menino era homem feito. Não era hipócrita era abobalhado. Tinha suas atitudes milimetricamente calculadas, e quando alguma coisa dava errado: "Eu esperava por isso!" - exclamava confuso.

Vez em quando tinha algum plano complicado, e gostava de dividi-los com seus amigos, imaginários, que estavam sempre por perto. Dava nomes as coisas, seus planos sempre tinham, chamava-os com alguns nomes que via nas operações policiais da tevê. "Operação tigre de bengala" - Foi o nome que mais adorou, tanto que teve continuação: "Operação tigre de bengala dois".

Tinha 27 anos quando sua mãe morreu, ou melhor, matou-se. Nunca soube o porquê, preferia não saber. Foi viver com a Tia Adelaide. "Megera!" - Pensava alto. Não via a hora de por o plano em prática e fugir dali. Dizem que por pressa o nome da operação foi só "Fuga" mesmo.