domingo, 29 de agosto de 2010

Ao lado

Estamos juntos no píer do porto, não nos olhamos há alguns minutos. Eu tenho medo de ele já ter partido e me deixado aqui sozinho. Pelos fortes uivos do vento e pela raiva das ondas contra as pedras não posso ouvir sua respiração. O céu está em um tom de cinza que me deixa confortável. Tenho medo de este mesmo céu parecer melancólico à ele. Perguntei-me quando chegamos se este era mesmo o melhor momento para nossa conversa. Não sei. Acho que não. Ele teria ido, caso fosse. Há talvez a possibilidade de já ter ido. Fico confuso. Vou olhar para o lado. Não, talvez seja melhor perguntar-lhe se está bem. No canto esquerdo, onde tem uma pequena praia que em dias de sol serve de diversão para crianças esperançosas, vejo um pescador consertar seu barco. O barco é azul e branco, a areia da praia é branca, a calça do pescador é azul. Ele, o pescador, olha para o barco e parece ignorar o mar. Sinto vergonha. Ele tão familiarizado com o mar, com a vida, com a dor. E eu, sobre o píer, sentindo o cheiro insuportável de tudo isso. Se fosse o homem da minha vida, esse que talvez esteja ao meu lado, de tudo faria para sugar todos os odores insuportáveis que me cercam antes de chegarem ao meu sofrido olfato. Eu por alguns segundos penso em chorar. Resumo calmo, não devo chorar. Não posso chorar. Estou chorando. Criança abandonada na praia em dia de férias. Meu mundo se acaba quando estou longe dos meus pais, as outras crianças tomam sorvete e passam filtro solar. Eu não, estou sozinho na praia, sob o sol, sem nada. A alegria assume o papel de egoísta. Por que eu não posso fazer parte da festa? Quem não me deixa correr por aí sabendo que no fim do dia eu vou voltar para casa e dormir de cansaço assim que encostar na cama? Paro de chorar. Olho para o lado. Ele ainda está. Sorri para mim. Enxuga minhas lágrimas. Pede desculpa e me abraça. Acho que é mesmo o fim.

sábado, 31 de julho de 2010

Um dia.

A porta na cara
O ônibus vazio
O troco errado
A vida
O passo cansado
O ritmo perdido
A desculpa rejeitada
O desespero
A cama com sono
O sonho complexo
O café amargo
A preguiça
A tevê ligada atoa
O chuveiro frio
O silêncio do mundo
Um dia.

sábado, 26 de junho de 2010

Afiado

- Pedi-lhe o fogo, recebi carícia. Como fizeste da sala pequena o teu pandemônio? Explicaram-me com calma a tua subversão, mas não entendi a tua covardia.

- Podemos arrastar o sofá para aquele canto? Acho que a sala pode ser mais prática se tivéssemos esse espaço livre, você não acha?

- Tu não vês que essas metas só te afundam? O córrego das tuas mentiras escorre entre meus dedos, e você ainda tem coragem de me olhar nos olhos?

- Eu não vejo porque não trocar este sofá de lugar, olhe bem. Tente visualizar as ligações cromáticas que se dariam entre o sofá e a parede nova.

- Faz assim seu escárnio, mete este teu sofá onde quiseres bem. Não me importo com tuas cores, nem tão pouco com suas vontades. Só não quero ter que arrastar esta porra se quiser abrir a janela.


Egoísmo altruísta literário

"Cadê você Camille?" - pensou ele enquanto corria pelo beco escuro fumegante. Não pensou realmente, eu disse que pensou, pois preciso que alguma coisa inicie a história boba de um homem correndo em um beco. Ele pode estar bêbado, maluco, zangado ou vingativo. Escolha você, eu continuo.
Após correr pelo beco pensando em Camille, avistou na esquina escura o maior confronto de sua vida. Bem, escolha o que será novamente, não acha que isso está ficando interessante?
Em disparada na direção do pesadelo afirmou suas crenças e seguiu. Cheguei agora em um momento muito importante do caso, pois dependendo do que este senhor acredita, sua vida pode mudar e ele finalmente encontrar Camille ou tudo continuar igual. Certo de que muitos vão atribuir-lhe crenças positivas, vou aderir a isso a continuidade, porém os negativistas sintam-se à vontade para continuar sozinhos daqui.
Coberto de si mesmo, cheio com o líquido da vitoria ele continuou e na mais improvável das hipóteses aconteceu. Espero que muitos de vocês tenham visto a cena final tão bem quanto eu. Obrigado.

domingo, 6 de junho de 2010

Apaixonado

Não acabou no fim, foram necessárias mais duas horas de choro e auto-explicação. O amor nos promete, mas nunca dá. Egoísta confuso sofrendo os males da própria tragédia. Como eu posso te explicar de forma fácil? Bem, não foi. Queria muito que fosse, mas não foi. E agora entre as outras beiradas das quais não caio há mais uma. Tão sórdido Shakespeare que não pode aumentar a dose. Arraigada a tristeza na nota grave do piano, a música não muda de tom. Espera-se sempre a revelação maravilhosa. Não sabem tolos que do lado de dentro cheira mal.